Paris – semana 38

Paris – semana 38

Às 6:40 o despertador tocou. Apertei o botão soneca. Foram três ciclos de nove minutos em que fiz a mesma coisa até que uma crise tosse me acordou de verdade. Em dezembro eu voltei a fumar, inadvertidamente durante os preparativos para as festas de fim de ano. Hábito burro.

Me enfiei num moletom e meti nos pés as pantufas que ganhei de presente de natal. No banheiro, lavei o rosto com água morna e escovei os dentes. Fiz o melhor para me deixar apresentável para a manhã de home office que tinha a frente. O desjejum foi um omeprazol e 300ml de café com leite de soja, canela, noz moscada, gengibre e açúcar. O açúcar no café, assim como o cigarro, era pra ter sido um pequeno regalo de um dia que acabou virando hábito que não consigo me livrar.

2019-01-14 07_22_11.223
7:30AM

A previsão era de neve mas lá fora o chão estava limpo, só o céu estava carregado de nuvens. A pequena alegria estética do inverno mais uma vez foi adiada. Talvez seja melhor assim, a neve na prática é um saco.

Enquanto espero o café fazer efeito circulo pelo Instagram e vejo saias, shorts e vestidos em Belo Horizonte, Tiradentes, Rio, São Paulo. Eu odeio o verão mas a segunda metade do inverno está acabando comigo.

O começo da estação não é tão ruim assim, ela vem carregada de expectativas. Na cidade, eles espalham luzes e guirlandas. Os convites para festas não param de chegar e é preciso fazer um verdadeiro malabarismo para conseguir fazer uma aparição em todas.

O final de dezembro é uma maratona que envolve usar roupas que servem tanto para o trabalho quanto para misturar gim com champagne na casa de semi-conhecidos com direito a maquiagem não necessariamente apropriada para a luz do dia, mas perdoável para o período. Só que quando se cruza a fronteira do fim do recesso do ano novo, nada mais resta além da escuridão e agradecer pelo pôr do sol, que cada dia acontece um minuto talvez mais tarde.

Me restam três meses em Paris e com toda essa névoa e frio hostil eu só consigo pensar no Brasil.

Hoje preciso escrever um texto sobre a economia na América do Sul. Nas pesquisas que comecei a fazer, o nome da minha cidade apareceu algumas vezes em destaque. Talvez Belo Horizonte não seja exatamente o fim de mundo que eu tenha imaginado nos anos morando e rejeitando lá.

Ainda deslizando a tela do Instagram eu tento fazer uma nota mental de todas as pessoas com quem quero passar mais tempo quando voltar. Penso em todas as roupas que quero usar – saias e camisetas e vestidos – eu não aguento mais sair de casa com duas calças, quatro blusas, duas meias, luvas, um cachecol e não sei mais o quê.

Meu maior medo era morrer de tristeza pela falta de estímulos na “cidade pequena”. Eu conseguia me ver chorando no meu quarto em BH odiando estar ali, mas a temporada de reclusão tem servido para fazer planos e avançar projetos.

Eu não tenho mais medo. Na verdade, eu mal posso esperar para descobrir todas as coisas interessantes que rejeitei enquanto estava dentro do meu quarto desejando estar em outro lugar.

 

Paris – Semana 31

Paris – Semana 31

(…)

Hoje fazem 7 meses que eu saí de BH e nas últimas semanas eu tenho chorado muito porque já passei da casa dos 6 meses (ou seja, a metade do tempo de validade do meu visto). É claro que não é só por isso que choro, mas tenho sido tomada por uma melancolia porque os 6 primeiros meses foram de descobertas, um pouco de receio, de perrengues – porra, eu morei em 5 casas diferentes! Eu demorei para me estabilizar financeiramente, e mesmo assim estou vivendo salário por salário. Eu preciso lembrar às vezes que a vida não é só para pagar contas e sobreviver, tenho que me forçar a gastar um pouco de dinheiro com uma roupinha aqui, um drink ali, às vezes um restaurante. Senão eu fico presa num ciclo de austeridade triste auto-imposta que não faz valer a pena a minha experiência. Ganhar em reais e gastar em outra moeda é um pesadelo, né? Mas as coisas melhoraram, ainda bem. Consegui equilibrar os trabalhos do Brasil e o trabalho daqui. Continue lendo “Paris – Semana 31”

Coisas que ninguém te conta sobre ser um Nômade Digital

Coisas que ninguém te conta sobre ser um Nômade Digital

Em algum momento da minha vida eu comecei a receber emails com títulos “Está na hora de pedir demissão?”, “Porque (sic) morar no exterior pode ser mais barato que no Brasil” ou “Como foi voltar para o escritório hoje?” depois de um fim de semana prolongado. Tem gente que vende o estilo de vida “Nômade Digital” como se fosse simples como vender um carro e entrar num avião.

Não é. Pra começar, nem todo mundo tem um carro para vender ou um emprego para largar. Mas algumas pessoas não têm famílias para sustentar e têm vontade de morar em outro país enquanto continuam fazendo freelas, e foi isso que eu fiz. Talvez isso faça de mim uma ~nômade digital, mas eu uso esse termo de forma muito solta.

Eu nunca acreditei muito nesse papo de Nômades Digitais, especialmente depois que saiu a notícia daquele casal que “largou tudo para viajar o mundo” e acabou “limpando privadas”. A internet fez muita chacota deles e eu entendo porquê. No Instagram a vida parece ser uma coisa e muitas vezes a realidade não corresponde às fotos.

Os textos de blogs em que as pessoas encorajam as outras a pararem de consumir para investir em “experiências” são ofensivos para quem não pode se dar a esse luxo – até que se descobre que não é um luxo, e que envolve sacrifícios tipo lavar privadas. Nada contra lavar privadas, meu problema é com quem vende um estilo de vida que não existe, com quem fala que trabalha todos os dias na beira da praia bebendo água de côco em Bali e omite a parte em que faz a conta fechar. Continue lendo “Coisas que ninguém te conta sobre ser um Nômade Digital”

Gay Games – Paris 2018

Gay Games – Paris 2018

Num dia quente no final de julho eu estava andando pelo Marais, um bairro que concentra uma enorme quantidade de estabelecimentos gay-friendly em Paris, quando vi que um deles – uma padaria que produz pães em formatos pênis, dentre outras coisas – estava decorando a sua fachada com os arcos olímpicos. “São os Gay Games”, um amigo comentou. Eu nunca tinha ouvido falar do evento, mas ele estava para acontecer na capital francesa entre os dias 4 e 12 de agosto.

Na semana seguinte, esse mesmo amigo voltou de um jantar com a tia de um ex-namorado que estava na cidade e me contou uma história meio curiosa. Ela, a Adriana Agostini, natural de Juiz de Fora, tinha participado dos Gay Games em Chicago em 2006 jogando sinuca. O que é curioso na história é que ela não sabia jogar sinuca. Não é exatamente o que se espera de uma atleta competindo a nível internacional. Mas ela queria tanto participar do dos Gay Games que se registrou, e se preparou jogando com amigas em um bar gay em Belo Horizonte, o Mamãe Já Sabia, e em um site da internet que simulava partidas. Continue lendo “Gay Games – Paris 2018”

Paris – a fina arte de ser nômade dentro de uma cidade só

Paris – a fina arte de ser nômade dentro de uma cidade só

Quando eu coloquei a minha vida em duas malas e me mudei para Paris, eu sabia que não ia ser simples. Eu disse adeus para o meu cachorro, para uma rotina previsível em Belo Horizonte que incluía acordar todo dias às 7h da manhã, sextas-feiras no boteco e almoços de domingo com a família, e o conforto de ter um endereço fixo.

Eu vim para cá com a sorte de ter alguns amigos já morando aqui. Isso me ajudou em vários aspectos práticos e burocráticos, que não merecem atenção agora, mas também me serviu como janela para o futuro nos meses que antecederam a mudança, de forma que eu soube como seria a minha situação habitacional – mais ou menos.

Morar em Paris é caro, mas não só isso. Requer muito desapego porque os espaços são pequenos, muito menores do que se imagina. E para o estrangeiro, mesmo com um visto de residência, conseguir um contrato de aluguel é um processo quase que Kafkiano – ainda mais se você é um freelancer. A pessoa solteira na casa dos 20 anos que mora sozinha e tem um emprego mais ou menos bom, muito provavelmente mora em um studio (leia-se: studiô) situado em um dos 20 arrondissements que ficam dentro dos limites da cidade. Continue lendo “Paris – a fina arte de ser nômade dentro de uma cidade só”

Paris – semana 16

Paris – semana 16

“São as últimas semanas de verão por aqui e a cidade está meio deserta. Tem vários comércios fechados e só tem gente falando inglês nas ruas! Uma loucura. Estou só flanando por Paris hahaha. Como já mencionei uma vez, sou amiga do Rodrigo, que trabalha no Conexão Paris com a Lina. É muito gostoso ter ele aqui comigo porque o trabalho dele é basicamente visitar os pontos turísticos e interessantes da cidade para postar na internet, né? Então quando ele vai fazer uma coisa mais interessante e eu tenho os dias livres eu acompanho ele nos passeios. Tem sido uma temporada maravilhosa.

(…)

A minha vida aqui é mais modesta do que na casa da minha mãe no Brasil, mas estou vivendo com muito mais qualidade e segurança, sem contar que morar em Paris já é um luxo por si só. A cidade tem muita coisa para oferecer. Eu passo os domingos na beira do Sena, o que não tem preço! Meu ponto preferido é ali na Île Saint-Louis, porque depois gosto de passear pela ilha que é tão pitoresca! E às vezes estou a caminho de algum lugar para comprar um livro ou encontrar uma pessoa e passo por monumentos que a gente está acostumado em ver em livros e filmes. É muito engraçado. Eu gosto de visitar a Shakespeare and Company, que vende livros em inglês, e para chegar lá eu tenho que passar pela catedral de Notre Dame. Eu acho um escândalo olhar pra cima e ver as duas torres da igreja em um dia absolutamente comum! Tenho um amigo que mora bem perto da Sacré-Coeur também, e às vezes vamos tomar um vinho perto da casa dele e basta olhar pra cima que a catedral está lá, toda linda e imponente. É maravilhoso! Sem contar todas as vezes que a gente está andando pela cidade e vê, ou a torre despontando de algum lugar, ou as luzes dela no céu. Eu estou morando no XXème, perto de Nation. Nem é perto da torre, mas daqui da minha janela eu vejo a luz dela rodando no céu e dá aquele quentinho na barriga!

Estou um pouco triste porque o verão está chegando ao fim, os dias já estão ficando mais curtos. Não é nem que eu não goste do frio, mas a cidade está vibrando muito e eu sei que já já todo mundo vai ficar mais recolhido e não vai ser possível aproveitar tanto do lado de fora. As folhas estão começando a mudar de cor também, o que é lindo, né? Quero tirar um dia para fazer fotos, preciso descobrir os lugares mais bonitos para isso!”

Trecho de um email para minha querida cliente Adriana.