Mais um fim de semana gelado e nenhum lugar aberto

Mais um fim de semana gelado e nenhum lugar aberto

É o último antes da flexibilização, na segunda-feira às lojas e pubs começam a abrir. Eu li em alguns lugares que tem beer gardens que já estão com reservas esgotadas até junho, o que não é muito animador. Me falaram que da última vez que acabou um lockdown os batem abriram às 8 da manhã e às 7h já tinha gente fazendo fila. Me imaginei no lugar dessas pessoas, só por diversão. Não estou tão desesperada assim para tomar uma cerveja com estranhos. (É mentira, se eu pudesse eu estaria agora numa mesa de bar com 3 copos na minha frente, fumando um maço de cigarro e caçando alguém, qualquer pessoa, para beijar de língua no banheiro. Mas ainda não tomei minha vacina e não seria de bom tom). Na TV e no rádio passam o dia inteiro propagandas sobre como agir depois de tanto tempo sem poder ver gente que moram em outras residências. “A gente entende que está frio, mas é melhor pegar um cobertor e uma touca e ficar no jardim por causa do ar livre”. No parque, adolescentes conversam com uma distância razoável. Não acredito que vou escrever essas palavras, “o novo normal”.  

Estamos em abril e só nesse mês já nevou duas vezes, duas!!! Alguém esqueceu de avisar pra São Pedro que a primavera chegou? Pelo visto, não, porque a rinite alérgica está comendo solta. E apesar desses incidentes gelados eu estou tendo que reaprender a usar o protetor solar. Antes disso tudo começar eu usava um tubo atrás do outro, fator 50, 70 no meu rosto. Esses dias eu sai do banho e percebi que meu nariz estava ardendo. Fui olhar no espelho e meu rosto estava vermelho. Esse mormaço e por do sol que só acontece depois das 19:30 (bem depois, o céu ainda está claro às 20h) não perdoa a minha pele. Porque eu estava protegida dentro de casa, me joguei nos tratamentos com retinol. Minha pele nunca esteve tão boa, eu não uso maquiagem como antes. E quando uso, meus olhos lacrimejam e perguntam “POR QUE?????”, eles desacostumaram com o delineador, a máscara de cílios. Até o corretivo irrita. Minha pele agora adora respirar. Ela gosta do carinho gentil da rotina de auto cuidado. O meu corpo também. Eu já sabia que tinha passado da idade de ir em festa atrás de festa e beber mais que uma garrafa de vinho em uma noite. Mas desde que cheguei aqui, tudo que faço é ficar dentro de casa, cozinhar, ver TV e dormir. (Será que se os bares estivessem abertos e eu estivesse vacinada, eu estaria bebendo como se não houvesse amanhã, ou eu estaria fingindo que iria ao banheiro e indo embora de fininho?). 

Eu cheguei em Londres já tem quase 5 meses e minha experiência de resume em ir ao parque e ao supermercado. Vez ou outra na casa de uma amiga. Eu poderia estar em qualquer lugar fazendo essas coisas. O auge do verão aqui é julho, falta um bocado. Com essa coisa de pandemia ninguém sabe de verdade o que é que vai acontecer, com ou sem vacina, com ou sem flexibilização. Uma coisa que aprendemos nesse último ano foi que a única coisa que dá pra contar é com o hoje e, no máximo, o dia seguinte. A semana seguinte, talvez. Veremos. Talvez eu comece com um café ao ar livre. Não um café num banco gelado da rua, mas uma mesinha em que posso levar meu computador

A primeira vez que me deixaram encostar num cachorro

A primeira vez que me deixaram encostar num cachorro

Me sentei no fundo do jardim com três bancos para que ninguém me visse fumando um cigarro. Do outro lado da rua tem um parquinho. Um dos cinco ou seis no raio de 10 quarteirões. Não quero fazer feio com nenhuma das mães, vai que… E lá da entrada, um homem com pinscher na coleira acenou um cigarro na mão e perguntou se podia se aproximar, se eu tinha um isqueiro. Ele estava longe, a mais de 15m de distância, e sorria. Achei simpático, tão cauteloso, respeitoso até  demais. As pessoas aqui não sorriem. Eu sorri de volta e falei pra ele se aproximar. “Ele não morde, só está excitado de estar do lado de fora!”, disse que estava tudo bem e que adoro cachorros, perguntei se podia encostar nele. O homem acendeu o cigarro e eu tentei fazer carinho no cachorro, que não parou quieto. “Muito agitado, talvez da próxima vez! Obrigado e deus te abençoe!”.  Fiquei encantada porque sempre que tentei encostar num cachorro aqui foi de um jeito meio sorrateiro, sem o dono ver. O pessoal não gosta muito de interação com quem não conhece. As pessoas são meio frias assim.

Eu tenho um amigo do Zimbábue que se mudou para a Inglaterra com 4 anos de idade. O Mike mora com a minha amiga que de brincadeira se identifica como “ex branca”*. Isso porque branca era a identidade dela no Brasil, mas aqui, não. Veja bem, no Brasil a Cris é branca. A cor da pele dela é branca, até para os padrões da Europa continental ela é branca. Tem ascendência italiana, cidadania italiana. Até aí tudo bem, eu também tenho. Talvez isso seja óbvio, mas caso não seja, ninguém me vê como braaanca também, minha pele é oliva, tenho quadris traços de latina. A Cris viveu a vida inteira como branca mas chegando aqui isso caiu por terra. Ela fala inglês “americano” e diz que as pessoas ficam confusas porque vêm uma coisa e ouvem outra. Segundo o Mike, ela anda com ritmo! (Será que eu ando com ritmo? Desde pequena a gente ouve das mães “para de andar rebolando!”. Vai ver que é isso, não sei.) 

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