A gente não tinha ideia

A gente não tinha ideia

O Fábio foi embora no dia onze de setembro. Eu me lembro disso porque fui à academia e pressionei minha digital no monitor junto à catraca eletrônica e vi a data iluminando o visor. Um dia para não celebrar. Na esteira eu caminhei e corri, suei pouco e não liberei nenhuma emoção. Minha vida social já não andava agitada. O que seria dela agora, sem a minha pessoa?

Há mais de dez anos nós dois dividíamos um espaço mental, um conjunto de sentimentos e significados, uma linguagem compartilhada. Uma história rica em empatia, alguns silêncios melancólicos, ataques de fúria quase sempre direcionados a terceiros. Acho que só tivemos uma briga. Nem me lembro o motivo, só sei que foi apenas uma.

Perto do Natal eu lhe escrevi uma carta. Estava meio bêbada e fiz um desenho horroroso de um boneco de neve. Enchi o envelope cor-de-rosa de purpurina e enviei no dia seguinte. Fábio  recebeu a correspondência depois do ano novo, disse que não poderia ter chegado em hora melhor.  Meu coração se partiu mais uma vez pela distância. Eu estava de viagem marcada para o Canadá sem nenhuma perspectiva de felicidade mas com a esperança do recomeço e reinvenção de mim mesma. Continue lendo “A gente não tinha ideia”

Paris – Semana 31

Paris – Semana 31

(…)

Hoje fazem 7 meses que eu saí de BH e nas últimas semanas eu tenho chorado muito porque já passei da casa dos 6 meses (ou seja, a metade do tempo de validade do meu visto). É claro que não é só por isso que choro, mas tenho sido tomada por uma melancolia porque os 6 primeiros meses foram de descobertas, um pouco de receio, de perrengues – porra, eu morei em 5 casas diferentes! Eu demorei para me estabilizar financeiramente, e mesmo assim estou vivendo salário por salário. Eu preciso lembrar às vezes que a vida não é só para pagar contas e sobreviver, tenho que me forçar a gastar um pouco de dinheiro com uma roupinha aqui, um drink ali, às vezes um restaurante. Senão eu fico presa num ciclo de austeridade triste auto-imposta que não faz valer a pena a minha experiência. Ganhar em reais e gastar em outra moeda é um pesadelo, né? Mas as coisas melhoraram, ainda bem. Consegui equilibrar os trabalhos do Brasil e o trabalho daqui. Continue lendo “Paris – Semana 31”

A carta de amor mais triste

A carta de amor mais triste

Já faz um mês que parti meu coração rompendo seja lá o que era que nós tínhamos e tudo que sei sentir é apatia e solidão.

Eu preencho as manhãs com trabalho e listas intermináveis de coisas para fazer. É com tanta voracidade que desempenho minhas tarefas logo depois de acordar que o que me resta são tardes que não sei preencher, a não ser por tentar afastar o sentimento da sua ausência na minha vida. Continue lendo “A carta de amor mais triste”

Tempo para ter tempo

Tempo para ter tempo

Estou ansiosa porque acho que não vai dar tempo e que logo vai ser tarde demais.

Vago isso, né?

Mas hoje a ansiedade brota dos emails de trabalho que não me respondem, emails que queria receber para saber do que vai ser do resto do meu dia, do meu amanhã, dos próximos seis meses.

Trabalhar de casa como freelancer não ajuda se você é uma pessoa que quer certezas na vida, mas foi a escolha que eu mesma fiz em nome da minha liberdade – que claramente não sei muito bem como administrar.  Continue lendo “Tempo para ter tempo”

Existe companhia na solidão

Existe companhia na solidão

Ansiedade é uma coisa muito louca. Na verdade, eu não sei te dizer qual patologia está agindo no momento, pode ser depressão, pode ser transtorno bipolar, pode ser ansiedade. Acho que nem os médicos sabem direito e também não acredito muito nesses rótulos específicos demais para…. enfim.

Mas uma coisa é real: a dor. É a sensação de não conseguir respirar, de desejar ser invisível para poder correr para o canto da sala de aula e chorar abraçando os joelhos, de querer arrancar sua pele e seus cabelos, abrir suas veias ou seja lá como isso se manifesta nas outras pessoas. Continue lendo “Existe companhia na solidão”

Clicar no pontinho verde e falar com você 

Clicar no pontinho verde e falar com você 

Eu vejo um pontinho verde ao lado da sua foto que indica que você está online. A sua foto é linda, aliás. Sua persona pública é sempre tão séria e vive debaixo demula nuvem negra e ranzinza – pelo menos é isso que me vem à mente quando leio suas opiniões por aí.

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