A primeira vez que me deixaram encostar num cachorro

Me sentei no fundo do jardim com três bancos para que ninguém me visse fumando um cigarro. Do outro lado da rua tem um parquinho. Um dos cinco ou seis no raio de 10 quarteirões. Não quero fazer feio com nenhuma das mães, vai que… E lá da entrada, um homem com pinscher na coleira acenou um cigarro na mão e perguntou se podia se aproximar, se eu tinha um isqueiro. Ele estava longe, a mais de 15m de distância, e sorria. Achei simpático, tão cauteloso, respeitoso até  demais. As pessoas aqui não sorriem. Eu sorri de volta e falei pra ele se aproximar. “Ele não morde, só está excitado de estar do lado de fora!”, disse que estava tudo bem e que adoro cachorros, perguntei se podia encostar nele. O homem acendeu o cigarro e eu tentei fazer carinho no cachorro, que não parou quieto. “Muito agitado, talvez da próxima vez! Obrigado e deus te abençoe!”.  Fiquei encantada porque sempre que tentei encostar num cachorro aqui foi de um jeito meio sorrateiro, sem o dono ver. O pessoal não gosta muito de interação com quem não conhece. As pessoas são meio frias assim.

Eu tenho um amigo do Zimbábue que se mudou para a Inglaterra com 4 anos de idade. O Mike mora com a minha amiga que de brincadeira se identifica como “ex branca”*. Isso porque branca era a identidade dela no Brasil, mas aqui, não. Veja bem, no Brasil a Cris é branca. A cor da pele dela é branca, até para os padrões da Europa continental ela é branca. Tem ascendência italiana, cidadania italiana. Até aí tudo bem, eu também tenho. Talvez isso seja óbvio, mas caso não seja, ninguém me vê como braaanca também, minha pele é oliva, tenho quadris traços de latina. A Cris viveu a vida inteira como branca mas chegando aqui isso caiu por terra. Ela fala inglês “americano” e diz que as pessoas ficam confusas porque vêm uma coisa e ouvem outra. Segundo o Mike, ela anda com ritmo! (Será que eu ando com ritmo? Desde pequena a gente ouve das mães “para de andar rebolando!”. Vai ver que é isso, não sei.) 

Na casa deles a gente fala muito do comportamento dos brancos, dos ingleses, e como eles não sorriem. Às vezes eu encontro um conhecido na rua e sorrio alguns metros antes, aceno antes de chegar na pessoa. Eles se limitam a dizer “oi, como você está” quando cruzam comigo, portando um semblante sério. Vejam que não tem ponto de interrogação. Não é uma pergunta sobre como vai o meu dia, é apenas a forma que eles se cumprimentam mesmo, sem esperar uma resposta. Os ingleses, os brancos per se, eles também não sorriem na rua. Eles não sorriem muito, não riem alto. Alegria parece ser uma coisa deselegante, até meio ofensiva. O meu bom humor, que faz parte do meu traquejo social brasileiro, aqui é visto como um desajuste, faz parte da minha outridade. Outridade esta que uma vez ouvi “acho que a bebê gosta tanto de você porque ela acha que você é outra pessoa, uma que tem a pele da mesma cor da sua e o mesmo tom de cabelo seu” (W. 8 anos). O irmão dele, D., 5 anos, me chama de esquisita sempre que eu faço qualquer coisa “estranha” que vai de assoar o nariz (faço em qualquer lugar, não tenho pudor, era comum na Holanda, era comum na França, eu tenho rinite alérgica – e ele também), até quando falo “ai!” ao invés de “ouch” quando trombo em alguma coisa. Algumas pessoas chamariam isso de xenofobia de leve, mas “eles são só crianças”. Bom, se não tem ninguém corrigindo esse comportamento quer dizer que ele é aceitável. As conclusões eu deixo para vocês.

Voltando ao Mike, ele me disse que uma vez foi ao barbeiro, um lugar de caribenhos. Ele chegou lá com sua postura inglesa, a que ele aprendeu morando aqui há anos. Os caras, todos negros, perguntaram de cara “mano, que isso? Tá sério? Não vai dar um sorriso?”. Porque o Mike tem a pele preta eles esperavam que ele agisse como eles, sorrisos e mais sorrisos, camaradagem. Errados eles não estavam porque o Mike, que vem de uma família tradicional africana, é de fato uma pessoa toda sorrisos. E ele navega a vida assim, entre o código britânico e os [outros] espaços. A coisa que eu mais ouço ele dizer é “white people, man”. E como é bom poder estar nesse espaço de reclamar junto da estranheza dos colonizadores velhos costumes tradicionais que a gente conseguiu filtrar (graças a deus) lá nos trópicos.

E o homem com o pinscher, o que teve que anunciar que estava se aproximando num espaço público a 15 metros de distância, ele era preto também.

*Editando esse texto para dar ainda mais ênfase ao fato de que “ex branca” é uma piada interna. É possível ser branca e latina ao mesmo tempo. E a identidade latina ou brasileira, algumas pessoas só descobrem ou se conectam com elas quando estão no território do outro. É um sentimento que percebo em muitos brasileiros que se mudam para a Europa e de repente se deparam com essa questão do que é de fato ser branco fora do Brasil e se (re)descobrir latino (branco ou não). Pelo amor de deus isso daqui é um blog.

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