Um clube do livro para chamar de meu

[Chamada pública para um Clube do Livro em Inglês – mais informações no final do texto!]

Esse ano eu mergulhei fundo em autobiografias e livros de não ficção escritos por mulheres. Eu sempre gostei de ler histórias de mulheres. As autobiografias que a gente tem acesso (e que as editoras escolhem publicar, afinal, interesse público e etc) são normalmente livros que vão direto para a lista de best-sellers. São histórias de famosas que passaram anos sob os holofotes — programas de tv, capas da revista People com manchetes nefastas, fofocas em tabloides que a gente sabe que são mentiras exageradas mas que lá nos idos dos anos 2000 escolhia acreditar, porque antes do Instagram elas não tinham um canal direto para controlar a narrativa dos escândalos fabricados para gerar venda de revistas (lembram delas?) e cliques em sites cheios de pop-ups.

Não que o Instagram seja o canal perfeito para comunicar a verdade. Vejam só, eu disse que ele é uma ferramenta de controle de narrativa, e não um meio de transparência absoluta. Com ele, a história vai da ponta dos dedos da celebridade (e do seu time de relações públicas) até as telas dos celulares dos milhões de seguidores que estão interessados naquela versão. Da Taylor Swift contando a sua versão sobre a interação pelo telefone com Kanye West sobre a letra de Famous (e o vídeo de extremo mau gosto que acompanhou a música) até uma outra irmã do clã Kardashian vendendo chás que prometem deixar a sua barriga chapada (deixando de fora o personal trainer, a nutricionista, o cirurgião plástico…), também é preciso praticar um pouco de cautela, para não dizer cinismo.

O que me encanta nos livros escritos por mulheres (e muitas vezes co-escritos por ghost-writers 💕 ) é justamente o processo da narrativa em long form. A grande diferença entre esses produtos de algumas centenas de páginas e as legendas de poucos milhares de caracteres é justamente o processo longo e doloroso de colocar no papel anos e anos de terapia e autoconhecimento. Os melhores livros que eu li todos tocam nessa questão, todos mencionam um psicólogo, um processo de terapia. E enquanto eu não esteja necessariamente procurando por conselhos ou grandes revelações durante essas leituras, elas são, invariavelmente, uma jornada de conhecimento e conexão.

Olhando para as capas de livros como Down the Rabbit Hole: Curious Adventures and Cautionary Tales of a Former Playboy Bunny (Holly Madison), Open Book (Jessica Simpson) ou Becoming (Michelle Obama), eu não espero me ver nas histórias delas. Eu não sou uma atriz, uma cantora e empresária, ou uma ex-primeira dama. Mas eu sou uma mulher, e algumas experiências são intrínsecas à esta condição. A opressão feminina é uma experiência universal, assim como a objetificação constante do corpo e, muitas, mas muitas vezes mesmo, a necessidade de agradar o outro (sim, no masculino) antes de pensar nas nossas próprias vontades e necessidades.

As histórias que eu venho lendo nem sempre trazem reflexões profundas. Algumas são mais rasas, mas nem por isso são leituras menos interessantes. Inclusive, isso faz delas ingredientes interessantes para este momento (o de estar trancafiada em casa por causa de uma pandemia global assustadora).

Então eu gostaria de te convidar para ler comigo alguns desses livros. Infelizmente eles não foram traduzidos para o português ainda. Eles são:

My Friend Anna – The true story of Anna Delvey, the fake heiress of New York City; Rachel DeLoache Williams

Em 2018, Rachel Williams, uma editora de fotografia da Vanity Fair contou na revista a história da sua amizade breve e MUITO TURBULENTA com a falsa herdeira de Nova York. Anna Delvey (que na verdade se chama Anna Sorokin) hoje está cumprindo pena por golpes que somam mais de 250 mil dólares. Uma outra “amiga” da Anna, que era recepcionista em um hotel que ela morou, também publicou a sua versão da história no The Cut. Os direitos dessa versão foram comprados pela Shonda Rhimes e eu estou contando os dias para ver essa obra prima na Netflix. Eu falei dessa história en passant no meu texto sobre a blogueira infame de Cambridge.

Meu link para comprar o livro na Amazon: My Friend Anna

Open Book; Jessica Simpson

Nos anos 2000 eu estava ocupada demais procurando fotos dos looks das gêmeas Olsen na NYU, lendo sobre a montanha russa emocional bastante pública da Britney Spears e calculando o meu IMC para ver se algum dia eu ia ser magra que nem a Nicole Richie (jamais serei). A Jessica Simpson, para mim, era apenas uma coadjuvante sem graça no terreno fértil da última década em que a cultura pop foi um grande circo de masoquismo e horrores. E o livro dela é interessante justamente por causa disso. Ela é uma heroína improvável. Ela não era a mais famosa ou a mais bem sucedida (de acordo com as capas de revista), mas ela passou por todas aquelas coisas também. E por muita terapia.

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Know My Name: A Memoir; Chanel Miller

Esse livro também nasceu de uma publicação online. Em janeiro de 2015, dois estudantes da Universidade de Stanford estavam pedalando à noite pelo campus quando se depararam com um homem em cima de uma mulher semi-nua atrás de uma caçamba de lixo. Ela só descobriu que foi estuprada quando acordou no hospital com a polícia. O caso ganhou destaque nos noticiários do mundo inteiro. Brock Turner, o estuprador, era um atleta pré-olímpico. A pena máxima para os crimes que cometeu era 14 anos. O juíz deu pra ele 6 meses de detenção e ele cumpriu apenas 3, por bom comportamento. A vítima, então conhecida como Jane Doe, leu essa carta no dia da sentença. A carta foi tão impactante que o Buzzfeed News pediu para publicar imediatamente. Viralizou. Anos depois, virou esse livro que é uma das coisas mais lindas que já li. Foram muitas lágrimas e praticamente um processo de renascimento junto aos relatos de Chanel, que além de escritora é também uma ilustradora talentosa. O livro ganhou o prêmio de melhor autobiografia pelo National Critics Books Circle Award este ano.

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Stay Sexy & Don’t Get Murdered: The Definitive How-to Guide; Georgia Hardstark e Karen Kilgariff

Antes de conhecer o My Favorite Murder, eu só ouvia podcasts de notícia. Quando eu conheci minhas amigas Georgia Hardstark e Karen Kilgariff, tudo mudou. Eu tive a sorte de ficar sabendo do podcast quando ele já tinha uns mais de 100 episódios, então durante um bom tempo eu ouvi todos os episódios diariamente na minha comuta para o trabalho. O My Favorite Murder é um podcast de true crime e comédia. As duas mulheres simplesmente se encontram para contar uma para a outra histórias sobre crimes horríveis que aconteceram em algum lugar ou passado distante, discutem como a polícia vacilou ou mandou bem, celebram a vida das vítimas e discutem a fundo as suas maiores ansiedades. Elas são muito engraçadas. Quem cresceu vendo Discovery ID e documentários sobre a JonBenet Ramsey e está sempre calculando uma rota de fuga caso o pior aconteça vai amar. No livro elas falam sobre como se conheceram, o porquê dessa obsessão com histórias de crimes reais e ansiedade. A estrutura de capítulos segue catchphrases cunhadas por elas no podcast (Fuck Politeness; You’re in A Cult, Call Your Dad;  Buy Your Own Shit  e outras preciosidades) e como elas chegaram nesses conselhos que são lemas de vida para quem ouve o MFM.

Meu link para comprar o livro na Amazon: Stay Sexy & Don’t Get Murdered

A minha ideia é achar uma, duas, três pessoas que queiram ler algum desses livros (ou todos!) e tenham interesse em discutir em uma reunião via Zoom. A gente marca um dia, pega uma tacinha de vinho e discute um livro, os melhores e piores momentos, as autoras, o que a gente aprendeu ou desaprendeu… coisas assim. Se você tem interesse, deixa um comentário, fala comigo no Insta (@marcelamxavier). Ah, e se você tem algum outro livro em mente, eu também estou aberta para sugestões!

Outros livros que gostaria de discutir:

  • Trick Mirror; Jia Tolentino
  • Girl, Interrupted; Susanna Kaysen
  • Prozac Nation; Elizabeth Wurtzel

Um beijo da sua amiga que tem lido demais e interagido de menos!👩‍💻✨

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