Vamos falar sobre a Caroline Calloway

A primeira vez que eu ouvi falar da Caroline Calloway foi em janeiro de 2019. Foi quando ela virou notícia em um dos peculiares nichos que eu sigo na internet — o erudito ninho de cobras da mídia local de Nova York no Twitter. São jornalistas, colunistas e freelancers que orbitam veículos como o BuzzFeed, Jezebel, The Cut, HuffPost e por aí vai.

Nessa época a influencer virou assunto quando começou vender ingressos, por uma bagatela de USD 165 (taxas não inclusas), para uma turnê de “workshops de criatividade”, “seminários sobre como ser você mesma”, um meet-and-greet cheio de firulas que tinha cara de furada. O evento prontamente ganhou o apelido de “Fyre Festival” das blogueiras.

Caroline prometeu eventos em várias cidades dos Estados Unidos, onde as suas seguidoras teriam direito a um encontro pessoal, uma sacolinha de presentes e uma coroa de flores. É que uma das marcas registradas da CaroCallo é gastar dinheiro com vasos de orquídea só para arrancar as flores da planta para usar elas de adorno no cabelo.

Ela compartilhou algumas datas com o pessoal através do Instagram (a única plataforma que ela usa), embolsou a grana das fãs e a desorganização aparente fez com que as pessoas começassem a desconfiar. A coisa ficou bem óbvia quando ela encomendou mil e duzentas jarras de palmito (que nos Estados Unidos e na região da Faria Lima em São Paulo eles chamam de Mason jar) e entrou em pânico nos Stories porque assim que elas chegaram ela descobriu que não tinha onde guardar.

Então foi aqui que ela guardou:

Era sabido que o plano desse “workshop” foi feito todo em um dia porque além de uma base de fãs a Caroline tem uma base de haters, que fazem ela ter que justificar cada coisa que ela faz, todos os dias, o tempo todo. E é bem engraçado porque se você der uma olhada nos comentários dos posts da Caro, os únicos que ela responde são os das pessoas xingando ela. Os elogios e mensagens de carinho ficam lá, devidamente ignorados. Uma rainha é uma rainha.

Uma jornalista que já acompanhava os vacilos da Caro usou um GIF para chamar o evento de golpe no Twitter. Isso aconteceu mais ou menos na época em que a história da Anna Delvey ganhou tração e a Shonda Rhymes comprou os direitos para transformar a história dela em roteiro (todo mundo adora um golpe).

Desde 2017 uma grande parte do meu trabalho gira em torno de produzir conteúdo sobre estratégias de marketing para quem quer ganhar dinheiro na internet, influenciadoras digitais. Eu não tenho muitas pessoas com quem falar sobre isso, é um assunto que interessa poucos amigos. Na verdade, acho que só as minhas clientes e olhe lá.

Então eu sabia que a única pessoa que que iria se interessar — mesmo que de forma tangencial — seria a minha cliente, que além de ser uma influenciadora é também especialista em marketing de influência e meio que estuda blogueiras por profissão. Por sorte ela também é minha amiga.

Quando isso aconteceu eu morava em Paris e ela em São Paulo. Nosso trabalho juntas era todo remoto, então durante algumas horas todos o dias a gente trocava emails, WhatsApp, documentos, links infinitos. Compartilhei a história da Caro. A minha obsessão por ela deve ter durado uma semana, dez dias, um mês? Eu não sei medir tempo na Caroland. Eventualmente dei unfollow no Instagram dela.

Em setembro de 2019 eu encontrei com essa minha amiga em Nova York. Eu estava morando lá há alguns meses e ela começou a dividir seu tempo entre São Paulo e Manhattan. “Eu PRECISO te mostrar o presente que eu ganhei ontem”, ela me disse. “Ok”. “Lembra da Caroline Calloway?”, “Não”. E eu não me lembrava mesmo, eu consumo conteúdo inútil (e fico obcecada com ele) com a mesma voracidade que como chocolate depois de fumar meu beck noturno.

E em uma dessas aventuras sem explicação da vida, um dia antes de me encontrar, ela conheceu uma CaroFan que deu para ela de presente uma pintura original Calloway.

Além de comprar a arte da Caroline, essa CaroFan (que é um doce de pessoa) também foi uma das pessoas que participou dos dois meet-and-greets da influencer que se concretizaram. Aconteceu um em Nova York e um em Washington, DC, se não me engano. A CaroFan não ganhou uma coroa de flores (ninguém ganhou), mas ela pode tirar uma foto com a Caro segurando uma orquídea. O que dá na mesma, se a gente começar a pensar nos termos da Caroline — um exercício que eu recomendo a partir de agora.

Deve ter sido algum fenômeno astrológico, um alinhamento de sorte dos planetas, eu não sei explicar. Eu só sei que eu voltei a seguir a Caroline e isso aconteceu um dia antes dela ficar sabendo que a sua ex-melhor amiga e escritora fantasma Natalie Beach ia publicar um artigo sobre a (des)amizade das duas no The Cut. Durante sete dias eu fui agraciada com o melhor conteúdo que a internet pode oferecer.

Caroline e Natalie se conheceram na NYU, em uma aula de Escrita Criativa/Não-Ficção. E daí começaram uma daquelas amizades que todas nós, mulheres, já tivemos em algum momento da vida, especialmente quando somos pessoas que trabalhamos com criação e criatividade. Não importa se fomos a Caroline ou a Natalie da história, simplesmente acontece (mas normalmente em graus menos dramáticos).

É assim: você conhece uma garota e acha ela genial. Ela é bonita, inteligente, engraçada, você quer ser como ela. A admiração é mútua. Vocês começam a passar tempo juntas, vocês querem ser mais como a outra, resolvem criar algo juntas. Só que a Caroline não é apenas a sua colega ambiciosa que quer passar todo o SEU tempo livre pensando em ideias mirabolantes que vão torná-la famosa. Ela é tudo isso e também uma pessoa que nunca aprendeu a exercitar a empatia, a reivindicar responsabilidade pelos seus atos ou qualquer ética de trabalho. Isso ficou bem claro nos dias que antecederam a publicação do artigo no The Cut.

Ao invés de ficar na dela e esperar o texto sair para depois se retratar, Caroline nos abençoou com uma enxurrada de posts no Instagram tentando se defender de antemão, já se utilizando de uma lista mental de todas as coisas terríveis que ela sabia que tinha feito com a sua ex-amiga, enquanto ao mesmo tempo a bombardeava com elogios e juras de amor.

Para manter a simpatia dos seus mais ou menos 700 mil seguidores (e sabe-se lá quantos destes são reais ou comprados), além de afirmar diariamente que Natalie era a escritora mais talentosa que ela já conhecera na vida e tentar assim mostrar que aceita seu lugar na cruz, Caro também criou uma narrativa em que ela era apenas uma vítima do vício em Adderall, uma anfetamina que trata déficit de atenção, enquanto tudo que a Natalie sofreu foram danos colaterais da pobre doença do vício, e não das ações dela.

Os especialistas amadores de plantão também alegam que ela possui traços de personalidade narcisista. Se você já conviveu com um narcisista, vai encontrar alguns paralelos nessa história.

O que rolou entre Caroline Calloway e Natalie Beach

O tempo todo a Caroline deixava bem claro o quanto odiava estudar na NYU, que queria ter estudado em uma instituição melhor. Yale, Harvard (onde seu pai tinha estudado), ou Brown. Ela morria de vergonha de ter um email @nyu.edu. Imagina, que mico! Já a Natalie, bem ciente do privilégio de estudar numa escola com um nome de peso e currículo excelente nas artes liberais, começou a ficar meio insegura, sabe como é.

Nessa época, lá em 2012, a Natalie morava num apartamento pequeno e zoado, um desses que quando você é estudante tem até SORTE de poder pagar, ainda mais numa cidade que nem Nova York. A única vez em que a Caro visitou a Natalie ela fez questão de deixar claro que achava o lugar “baixo astral” — e nunca mais voltou. Elas então só encontravam na casa da Caroline, em estúdio no West Village (onde ela ainda mora) cujo aluguel hoje gira em torno dos USD 2.600,00.

Em uma viagem pela Itália com a Natalie em 2013, que tinha acabado de fazer um intercâmbio no Reino Unido, a Caroline disse que tinha “dado sorte”, conseguiu 50 mil seguidores no Insta da noite pro dia porque postou umas fotos de uns macarons que foi parar na página Explore. Ela disse “vamos investir nisso, isso vai me deixar famosa!”.

Só que a história parece que foi um pouco diferente. A Caroline tinha marcado umas reuniões com agentes literários porque queria vender uma autobiografia. Ela queria contar a história da vida dela e ser famosa. Mas todos eles falaram “que história?”, “famosa por que?”. E então ela decidiu que iria VIRAR famosa. Ela patrocinou alguns posts no Instagram e comprou seguidores para parecer mais relevante, dar um empurrãozinho na sua imagem. É fake ‘til you make que chama, né?

Nunca satisfeita, sempre muito ambiciosa, a nossa garota Caroline conseguiu finalmente entrar em uma faculdade que ela considerava de prestígio: Cambridge, no Reino Unido.

A melhor parte aqui é que por um tempo ela segmentou o público alvo dela para fãs de Harry Potter, afinal, Cambridge tem um castelo, Hogwarts ficava dentro de um castelo… acho que foi essa a linha de pensamento que ela usou.

E funcionou! Durante um tempo a Caroline pagou a Natalie para escrever as legendas enoooormes e ultra pessoais que deixaram ela famosa no Instagram. Ela sabia que a Natalie era uma e escritora talentosa e também sabia que ela precisava do dinheiro, então foi isso.

Ela conseguiu fãs, outras meninas que compraram aquele estilo de vida de menina branca estudando em outro país, bebendo vinho à beira do rio, indo em bailes, frequentando círculos aristocráticos…

Mas enquanto a Caroline foi crescendo, ela também foi deixando a Natalie de lado. A Natalie mandava emails que eram nunca eram respondidos e assim a vida seguiu.

O negócio era meio estranho. A narrativa que ela contava não seguia a linha do tempo que ela vivia. O que ela dizia que tinha acontecido hoje correspondia a acontecimentos de um ano antes e tudo era bastante ficcionalizado. Tem caso até de foto “da noite anterior” que na verdade ela tirou na manhã seguinte. E vou mais longe, tem foto “do dia que ela conheceu o namorado” que foi tirada quando eles já moravam juntos. Ninguém se tocou na época.

No começo de 2015 Caroline conseguiu um agente. Não qualquer agente, mas o Byrd Leavell que no catálogo de clientes tem gente tipo Cat Marnell, The Fat Jew e Donald Trump. Isso apareceu nos sites de notícia e foi assim que a Natalia ficou sabendo. Com medo de ser deixada para trás, mandou emails parabenizando, oferecendo ajuda, fez de tudo pra conseguir a atenção da Caro. Nada.

Até que… um dia….  vários meses depois… A Caroline ligou para a Natalie com aquele papo tipo “Amiga ❤ saudades. Preciso da sua ajuda, tenho que entregar a proposta do livro essa semana e não escrevi nada, risos”.

E com muito Adderall para manter o #foco e muita maconha para #relaxar as duas fizeram um trabalho meio porco mas que serviu para levar para a sala de reunião. O projeto foi vendido por USD 375.000,00. Uma porcentagem iria (e parece que foi) para a Natalie, mas mesmo assim ela ficou com o ego machucado porque estava lá se desdobrando para ser a protagonista da vida da Caroline e só.

E daí uma parte desse dinheiro entrou, a Caroline evidentemente não fez trabalho nenhum além de postar no Instagram que era uma escritora de verdade afinal tinha um contrato para provar. Ficou vivendo do rush de adrenalina dessa reunião e do pagamento adiantado durante um tempo, até que começaram a chegar as cobranças. Ela já tinha parte do dinheiro, a editora precisava de um manuscrito, um rascunho, qualquer coisa!

E mais uma vez ela pediu socorro para a Natalie, que largou tudo e foi para Cambridge tentar resgatar a amiga e encontrou ela vivendo em um condições absolutamente insalubres.

Durante um ano elas tentaram tocar o projeto do livro a distância. Quando o prazo estava virando a esquina e a Natalie estava dando tudo de si para tentar entregar o manuscrito, Caroline soltou a seguinte pérola: se você escrever mais uma frase eu vou me matar.

Segundo ela, não foi porque o trabalho da Natalie era ruim mas porque ela estava muito mal mesmo da cabeça, enrolada no vício e sufocada com a pressão. Mas naquela época isso não tinha ficado muito claro para a Natalie, que já estava por aqui dessa história. E quando a data limite chegou e passou, não teve livro e não teve mais amizade.

[Isso é um resumo porco do artigo original do The Cut.]

A era pós-The Cut da Caroline Calloway

Depois do fiasco do livro, a Caroline deu uma sumida. Ela ressurgiu quando resolveu querer ensinar as outras pessoas a serem criativas quando ela mesma nunca conseguiu entregar um projeto criativo, e assim vieram as notícias do seu evento/golpe e as jarras de palmito. E se essas notícias chegaram até mim, elas também chegaram até a Natalie, que com sangue nos olhos pensou “esse é o meu momento”. E foi.

Ela vendeu o artigo para o The Cut por um preço bem mais alto que o de um artigo comum. E o drama que a Caroline fez antecipando a publicação foi tão grande e gerou tanta comoção que foi o texto mais lido do site em 2019.

Mas gerou muita comoção também porque um dia depois ter sido publicado, a Caroline descobriu que seu pai morreu por suicídio.

E essa foi uma reviravolta tão, mas tão absurda, que até dois dias atrás tinha gente na internet jurando de pé junto que ela tinha inventado a morte do pai para ganhar a simpatia dos outros.

E o que era um drama viraram dois. E eu sei que é difícil fazer transparecer empatia na internet mas eu não consigo imaginar como deve ser perder o pai para o suicídio. Ainda mais quando você está no meio de um pequeno escândalo colocando em cheque a sua ética, moral e talento. Eu também jamais julgaria a forma que uma pessoa, seja ela quem for, lida com o seu luto. Tendo dito isso, o desenrolar das coisas aconteceu de forma bem pública. E porque a Caroline parece não ter muitos amigos fora do Instagram e porque o Instagram parece ser a sua única forma de expressão, o que aconteceu neste período seria digno de uma parceria entre Chico Xavier e Edgar Morin.

Natalie acabou recebendo ofertas de produtoras que queriam contar aquela história no cinema (ou numa plataforma de streaming). Duas pobres meninas ricas, ambição, Instagram, Adderall, intercâmbio. A espertona da Natalie vendeu os direitos sem o nome da Caroline Calloway, o que significa que ela pode contar a história dela mas vai ter que ficcionalizar a Caroline.

A Caroline viu nisso uma #oportunidade. Então ela foi atrás. No auge do luto, viajou para Los Angeles, inventou umas reuniões com o pessoal de Hollywood e disse que estava vendendo seu projeto também. No Instagram ela até falou que ia encontrar atrizes interessadas em fazer o papel de Caro no cinema.

Durante sua turnê por LA ela também se engraçou com outras influencers do Instagram que produzem ~arte. Teve muitas fotos dela coberta de tinta no chão da casa dos outros produzindo pôsteres com todo o tipo de material que você pode encontrar na Kalunga e que depois foram colocados à venda por preços que variavam entre USD 120,00 – USD 260,00. Ela realmente soube aproveitar o timing porque a qualidade das obras é algo a ser discutido. Um dos seus best-sellers sãos os BBs, “inspirados” na obra de Matisse.

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Matisse à esquerda, um original Calloway à direita

O livro Scammer e a era atual

Meses (ou semanas) se passaram, e tudo indica que Hollywood não fechou nenhum acordo com a Caroline.

Em janeiro ela passou uma temporada na casa da avó na Flórida, disse que ia ficar lá até terminar de escrever. Não esclareceu o que é que estava escrevendo. A princípio disse que era um livro, depois um artigo para o The Cut. O artigo nunca apareceu. Ela colocou em pré-venda no site que ela criou no Shopify um livro que intitulou Scammer (Golpista). Mas ainda se irrita quando associam sua imagem com de outros “golpistas”.

Ninguém sabe a quantas anda a produção deste livro, e diz ela que ele só estará disponível para quem comprar antecipadamente. Nem a mídia vai ter acesso. Uma repórter pediu um trecho e ela disse que “ela não merecia”, e publicou um print da conversa nos Stories. A Caroline está com raiva da mídia em geral pelo modo que retrataram ela à época dos eventos que ela não deu conta de planejar, mas ao mesmo tempo está pedindo para que veículos entrem em contato para conversar sobre o livro — sim, mesmo depois do print da conversa com a jornalista.

A estadia na Flórida parece que não foi voluntária, e sim porque ela deixou de pagar mais de 8 mil dólares em aluguel atrasado e ficou trancada para fora so seu apartamento. Mas isso é especulação do pessoal que investe tempo em apurar as alegações da influencer e desmentir todas coisas que ela fala.

Eu mesma paguei 2 dólares para ter acesso ao conteúdo de Melhores Amigos no Instagram dela. Segundo o Patreon fomos um total 400 pessoas trouxas. Fiz isso por conta própria, assumindo os riscos. Foi golpe, ela nunca postou nenhum conteúdo nos Stories verdinhos. A comunidade anti-Caroline diz que ela embolsou a grana para pagar o aluguel atrasado. Não duvido.

Nos últimos ela tem postado fotos com outras pessoas pela primeira vez em muito tempo. Parece estar saindo de uma fase depressiva. Eu espero que sim. Ela também continua sua rotina que inclui aulas de Pilates, spinning e sauna diariamente, e visitas ao psicólogo três vezes por semana (mas também há quem diga que ela só vá de vez em quando e esteja usando o dinheiro das sessões que a mãe paga para outras coisinhas).

E se você chegou até aqui, parabéns. Eu consegui destilar quase todo o meu conhecimento sobre essa mini-web-celebridade de nicho e espero que em breve consiga dar o unfollow, livrando merecido espaço emocional no meu cérebro. 🦋

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