A gente não tinha ideia

O Fábio foi embora no dia onze de setembro. Eu me lembro disso porque fui à academia e pressionei minha digital no monitor junto à catraca eletrônica e vi a data iluminando o visor. Um dia para não celebrar. Na esteira eu caminhei e corri, suei pouco e não liberei nenhuma emoção. Minha vida social já não andava agitada. O que seria dela agora, sem a minha pessoa?

Há mais de dez anos nós dois dividíamos um espaço mental, um conjunto de sentimentos e significados, uma linguagem compartilhada. Uma história rica em empatia, alguns silêncios melancólicos, ataques de fúria quase sempre direcionados a terceiros. Acho que só tivemos uma briga. Nem me lembro o motivo, só sei que foi apenas uma.

Perto do Natal eu lhe escrevi uma carta. Estava meio bêbada e fiz um desenho horroroso de um boneco de neve. Enchi o envelope cor-de-rosa de purpurina e enviei no dia seguinte. Fábio  recebeu a correspondência depois do ano novo, disse que não poderia ter chegado em hora melhor.  Meu coração se partiu mais uma vez pela distância. Eu estava de viagem marcada para o Canadá sem nenhuma perspectiva de felicidade mas com a esperança do recomeço e reinvenção de mim mesma.

Foi em fevereiro que a porta do absurdo se abriu e eu descobri que a partir do dia 7 de março eu teria a chance de ficar mais perto do meu amigo. Eu não queria tomar uma decisão com base nos meus sentimentos, mas quem eu estava enganando? A França seria muito mais vantajosa sob todos os aspectos e a possibilidade de viver em Paris perto da minha outra metade me parecia irresistível, quase boa demais para ser verdade.

Quase que foi. No dia 8 de março, na embaixada do Rio de Janeiro, eu fui a primeira a requerer o visto recém promulgado. Meu amigo me forneceu uma carta convite sem a menor necessidade, já que eu já tinha prova de estadia. Eu tinha mais que todos os documentos necessários mas a cópia do passaporte com a foto do rosto tão familiar servia quase como um amuleto. Por trinta segundos eu não perdi o ônibus de volta para Belo Horizonte. No caminho de volta, vomitei. Semanas depois queriam me devolver meus papéis — o acordo entre Brasil e França havia sido suspenso. Gastei horas dos meus dias ao telefone com assessores de autoridades. Por sorte ou insistência, consegui meu documento e viajei. Fui recebida no aeroporto por ninguém menos que meu ex-colega da faculdade que larguei, amigo a quem apresentei a noite gay da cidade, meu mais querido confidente.

No começo eu não tinha muito dinheiro, minhas condições de moradia eram nada menos que risíveis. Eu dava gargalhadas da minha sorte, da nossa sorte. Quantas pessoas podem desbravar com calma a cidade mais bonita do mundo junto da sua pessoa preferida? Alguns dos trabalhos eram igualmente engraçados. Babá de criança, babá de cachorro. Em um dia de aperto em que os dois empregos exigiam minha presença no mesmo horário ele ficou com o cachorro por mim. Levou um livro para se distrair. Dentre as páginas estava a carta que escrevi no Natal. Começava com “A gente não mora na mesma cidade…”. Nós não tínhamos ideia.

As sextas-feiras se tornaram nossas noites de terapia. Vinho barato, baguete e frios. Às vezes eu cozinhava porque era a única que sabia temperar comida. Foi numa dessas que fiz o Fábio comer aspargos pela primeira vez na vida Minhas capacidades de compreensão acerca de sutilezas são absolutamente nulas. Sei que ele mentiu quando disse que não achou tão ruim e até hoje sou tão grata por essa pequena distorção da verdade.

Quando veio o auge do inverno ele foi para o Brasil e eu pude viver minha depressão sazonal sem sobrecarregar a nossa relação. Já passamos por outras depressões minhas juntos mas dessa vez eu tive medo porque ele era a única pessoa por perto. Tive tempo para me curar, tudo ficou bem. Descobri também que eu não era a única que tinha sido afetada pelos dias escuros e chuva quase que constante. Lá pro dia 12, Paris tinha visto apenas 4 minutos de sol. A chegada da primavera mudou tudo e também coincidiu com a minha hora de partir. Passou tão rápido.

Meu francês pouco evoluiu, mas eu já sabia pegar o metro de olhos fechados. O caminho para a casa dele eu sabia de qualquer lugar da cidade. Apesar de já ter uma casa confortável há tempos, o meu endereço para todos os fins legais e comerciais continuou sendo o do Fábio.

Doze meses, um ciclo inteiro. Nesse tempo vivemos uma vida. Ganhamos rugas com certeza, a água tem tanto calcário. O humor dos parisienses também não ajudou.

Hoje estou do outro lado do Atlântico, embora não saiba ainda se estou em casa. Mais uma decisão pouco prática que tomei — mas eu não me sinto mais distante.

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