Coisas que ninguém te conta sobre ser um Nômade Digital

Em algum momento da minha vida eu comecei a receber emails com títulos “Está na hora de pedir demissão?”, “Porque (sic) morar no exterior pode ser mais barato que no Brasil” ou “Como foi voltar para o escritório hoje?” depois de um fim de semana prolongado. Tem gente que vende o estilo de vida “Nômade Digital” como se fosse simples como vender um carro e entrar num avião.

Não é. Pra começar, nem todo mundo tem um carro para vender ou um emprego para largar. Mas algumas pessoas não têm famílias para sustentar e têm vontade de morar em outro país enquanto continuam fazendo freelas, e foi isso que eu fiz. Talvez isso faça de mim uma ~nômade digital, mas eu uso esse termo de forma muito solta.

Eu nunca acreditei muito nesse papo de Nômades Digitais, especialmente depois que saiu a notícia daquele casal que “largou tudo para viajar o mundo” e acabou “limpando privadas”. A internet fez muita chacota deles e eu entendo porquê. No Instagram a vida parece ser uma coisa e muitas vezes a realidade não corresponde às fotos.

Os textos de blogs em que as pessoas encorajam as outras a pararem de consumir para investir em “experiências” são ofensivos para quem não pode se dar a esse luxo – até que se descobre que não é um luxo, e que envolve sacrifícios tipo lavar privadas. Nada contra lavar privadas, meu problema é com quem vende um estilo de vida que não existe, com quem fala que trabalha todos os dias na beira da praia bebendo água de côco em Bali e omite a parte em que faz a conta fechar.

Viajar é muito caro

Vamos começar pelo básico: fazer ou renovar um passaporte custa R$ 257,25. A passagem vai custar mais de R$2.000,00 – e não vai poder ser uma passagem baratinha dessas de promoção relâmpago, porque quando você viaja por um período longo, você precisa ter a opção de remarcar a sua volta. Passagens flexíveis são mais caras. Tem gente que, em viagens para turismo, dá o pulão no seguro saúde (o que pra mim é impensável). Mas quando você planeja morar em um lugar por um tempo extenso, não pode se dar ao luxo de não ter uma cobertura para casos de emergência. O valor do seguro saúde depende do tempo da cobertura. E para quem trabalha com equipamentos eletrônicos (ou seja, todos os nômades digitais), também é necessário assegurar, no mínimo, o computador.

Dependendo do seu destino, muito provavelmente você vai ter que pagar pelo seu visto. Além do valor do visto (que deve ser pago na moeda local, às vezes eu euros ou em dólares), você pode também ter que pagar pela viagem até um consulado e também comprovar que tem dinheiro na conta para se manter no país onde pretende morar nos próximos meses.

Viver é caro em qualquer lugar do mundo. Para acordar e passar um café, engolir um cereal, tomar um banho e colocar uma roupa, você tem que dispor de dinheiro. Dinheiro para o supermercado, para as roupas, para a lavanderia e para a manutenção da casa. Isso sem contar com o transporte público, afinal, você não decidiu se tornar um “nômade digital” para ficar dentro de casa trabalhando, né? Então coloca aí na conta também o dinheiro para uma cervejinha no final da tarde, um passeio turístico uma vez por semana, um cineminha para quando você estiver de saco de ficar dentro do seu quarto.

A burocracia é complicada

É possível ser um “nômade digital” com um visto de turismo, mas isso restringe bastante o tempo que você pode passar em um lugar e também o trabalho que você pode desenvolver.

Com um visto de turista você pode ficar 3 meses dentro da União Europeia e até 6 meses nos Estados Unidos, por exemplo. Mas você não pode trabalhar nesses lugares. Você pode, no máximo, continuar desenvolvendo as atividades que você já desenvolvia à distância e, mesmo assim, há algumas restrições – especialmente nos Estados Unidos.

Acomodação vai ser um problema

Mesmo com um visto de estudos ou de residência temporária, acomodação vai ser um problema.

Para alugar um apartamento, você precisa de um contrato de trabalho, um fiador, um extrato do banco (local), a cópia do seus últimos contracheques (no país) e mais um tanto de garantias. É claro que você, estrangeiro recém saído do avião, não tem nada disso. Então você vai ter que recorrer a agências que cobram uma taxa absurda como garantia ou sub-locar. E no mundo da sub-locação tem muita, mas muita gente louca mesmo tentando te passar a perna. Isso sem contar que os lugares que as pessoas sub-locam nunca ficam disponíveis por muito tempo. Eu estou em Paris há quase 5 meses e já morei em 5 apartamentos diferentes. Em novembro me mudo para o meu sexto endereço na cidade.

nomade digital em paris
O lugar que eu mais passei tempo em Paris: um total de 3 meses

Meio que não dá pra ser “nômade digital” ganhando em reais

Quem é freelancer no Brasil ganha em reais. A moeda está super desvalorizada. Ganhar em reais e gastar em dólares ou em euros é uma grande desvantagem. Então, quem quer ser um verdadeiro “nômade digital” vai ter que 1- ganhar muito bem 2- viver de forma muito modesta durante o período de viagem.

Quem tem a opção de trabalhar paralelamente, como é o meu caso (eu tenho um visto de trabalho), deve. Ter uma renda em euros é o que me permite viver em Paris, não o meu trabalho de “nômade digital”.

Mas eu insisto no meu trabalho como jornalista e profissional de marketing digital porque, no futuro, eu espero sim que ele seja minha única fonte de renda. Eu continuo criando, aprendendo e me atualizando porque não quero sair do mercado de trabalho.

Nem tudo é o que parece

Existem muitos perfis diferentes de jovens imigrantes, é preciso ter o pé no chão sempre e lembrar que cada um tem a sua trajetória. Tem uns que são brasileiros que chegaram ainda crianças, outros que têm passaportes europeus. Alguns são americanos que vieram passar um ano e nunca mais voltaram, outros vieram de países europeus mais pobres em busca de trabalho. Tem também os sortudos do ramo de TI podem apontar pro mapa e decidir onde vão pedir um cartão de residência permanente e um emprego dos sonhos.

Mas tem também um perfil específico e que todo mundo conhece bem: as pessoas que são, em parte ou em sua totalidade, sustentados pela família. Pessoas que têm vistos de estudo que permitem trabalhar muitas vezes usam os pais ou outros parentes como sponsor, ou, no bom e velho português, patrocinador, para pedir o visto e para se sustentarem durante o período em que moram em outro país. Isso permite uma vida mais segura e confortável.

O problema é que algumas dessas pessoas não assumem a responsabilidade de serem sustentadas. Elas moram em lugares bons, elas não têm que escolher entre fazer as compras da semana ou comprar um casaco de inverno da moda, e elas vão te fazer se sentir mal por querer almoçar em casa ao invés de sentar num restaurante descolado para aproveitar a vista.

As pessoas que são financeiramente patrocinadas, no seu país de origem ou no exterior, não gostam de falar da origem do seu dinheiro porque elas sabem que é uma causa de ressentimento. Acaba sendo desonesto, afinal nem todo mundo esperar pela oportunidade de trabalho perfeita: os boletos continuam chegando. Há uma pressão enorme para se dar bem, e às vezes você olha para os lados e se pergunta “será que eu estou tão mal assim?”.

Não são férias

Eu faço meu trabalho remoto na parte da manhã, de tarde vou para o meu trabalho aqui. Se aparece um outro bico ou vou lá e faço porque preciso guardar dinheiro caso haja uma emergência. Quando eu acho que vou poder dormir até mais tarde eu descubro que tenho que sair de casa para lavar roupa na lavanderia e comprar papel higiênico porque o meu acabou. Tem dias que eu quero dormir às 20h mas eu tenho que lavar a louça porque estava cozinhando para deixar comida pronta para não morrer de fome ao longo da semana. Isso sem contar os dias que eu consigo ir dormir antes das 22h mas o namorado da vizinha toca o interfone depois da meia noite e eu passo a noite em claro porque eles fazem muito barulho ~na cama. Eu quebrei um dente há 3 semanas e até hoje não tive tempo de ligar para o seguro para descobrir como faço para ir num dentista.

Uma amiga ficou na minha casa (de um cômodo) durante um fim de semana em que eu tive que trabalhar e também enviar uma peça para um processo seletivo e eu chorei de exaustão quando ela foi embora, mas não muito, porque eu tinha que tomar banho e continuar trabalhando naquele dia… E como eu sou uma profissional independente, eu não tenho direito a dias de folga ou de licença, o que me deixa ainda mais ansiosa porque qualquer deslize pode ser punido com a terminação de um contrato (ou pior, nem contrato existe).

nomade digital
Eu postei essa foto no Instagram depois de chorar 3 dias e 3 noites de cansaço e exaustão mental

Mas ruim, não está

“Ah mas quem vê suas fotos em Paris…” – não sabe de nada

“Não sei por que você se importa com o que os outros acham de você no Instagram, se nem influencer você é” – me importo porque acham que estou vivendo a melhor vida e não estou trabalhando ou respondendo emails porque prefiro curtir

“Pelo menos não está em casa no domingo vendo Domingão do Faustão” – olha, isso é verdade.

Um comentário em “Coisas que ninguém te conta sobre ser um Nômade Digital

  1. povo romantiza demais a vida no exterior. já romantizam a vida no brasil né? o que é foda pra quem realmente começa a planejar toda uma mudança na vida achando que é tranquilis. assisto de vez em quando vlog de gente que tá nessa. dá pra perceber a facilidade da coisa, dá pra ver que tem patrocínio no rolê. mesmo quando a pessoa diz que tá difícil, que tá economizando, etc etc etc.

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