Gay Games – Paris 2018

Num dia quente no final de julho eu estava andando pelo Marais, um bairro que concentra uma enorme quantidade de estabelecimentos gay-friendly em Paris, quando vi que um deles – uma padaria que produz pães em formatos pênis, dentre outras coisas – estava decorando a sua fachada com os arcos olímpicos. “São os Gay Games”, um amigo comentou. Eu nunca tinha ouvido falar do evento, mas ele estava para acontecer na capital francesa entre os dias 4 e 12 de agosto.

Na semana seguinte, esse mesmo amigo voltou de um jantar com a tia de um ex-namorado que estava na cidade e me contou uma história meio curiosa. Ela, a Adriana Agostini, natural de Juiz de Fora, tinha participado dos Gay Games em Chicago em 2006 jogando sinuca. O que é curioso na história é que ela não sabia jogar sinuca. Não é exatamente o que se espera de uma atleta competindo a nível internacional. Mas ela queria tanto participar do dos Gay Games que se registrou, e se preparou jogando com amigas em um bar gay em Belo Horizonte, o Mamãe Já Sabia, e em um site da internet que simulava partidas.

Adriana teve só três semanas para aprender, não foi muito tempo. Chegando lá ela teve que alugar os tacos de sinuca, enquanto todos os outros jogadores e jogadoras já tinham viajado com os seus, profissionais. Adriana não durou mais que algumas partidas e não se qualificou para nenhuma medalha, mas conta que a experiência foi ótima e é hoje uma grande entusiasta do evento.

Essa é a proposta dos Gay Games, criados em São Francisco, nos Estados Unidos, em 1982. O idealizador do evento, Tom Waddell, era um decatleta americano que havia competido nas Olimpíadas da Cidade do México em 1968. Ao criar os Gay Olympic Games, ele pensou numa estrutura de competição olímpica não separatista, não exclusivista, para pessoas que não se consideravam, necessariamente, heterossexuais. Waddell defendia, em suas palavras, a “igualdade formal de chances”, exaltando que, diferente dos esportes convencionais, que separam homens e mulheres em categorias rígidas em nome de uma “justiça esportiva”. Para ele, essa diferença não poderia prevalecer, excluindo corpos sem habilidades técnicas específicas ou sem identificação de gênero ou sexual definidos.

O nome do evento teve que mudar três semanas antes da sua realização. O Comitê Olímpico Americano, apoiado pelo Comitê Olímpico Internacional, ganhou uma ação na justiça impedindo o uso do termo “olimpíada” sob a justificativa de que iria “macular o espírito olímpico”. E assim nasceram os Gay Games.

Eles acontecem a cada quatro anos, cada edição em uma cidade. Os Jogos Gays já passaram por São Francisco, Vancouver, Nova York, Amsterdã, Sidney, Chicago, Colônia, Cleveland, Paris, e vão acontecer em Hong Kong em 2022. O número de atletas chega a ser impressionante. No seu primeiro ano, foram cerca de 1.350 inscritos. A edição mais popular foi a de Amsterdã, onde competiram por volta de 13.000 pessoas. Esse ano em Paris são 10.178. Para se ter uma ideia, nas olimpíadas do Rio competiram 10.500 atletas. Nas paralimpíadas foram 4.500. Os Gay Games têm uma adesão enorme.

A cartilha do evento frisa que os jogos não são orientados para a vitória e nem visam os ganhos comerciais, mas que sua intenção é reunir uma comunidade global em torno da amizade, experimentar a participação, elevar a consciência e a autoestima e alcançar uma forma de sinergia cultural e intelectual. Isso justifica a participação de gente como a Adriana, nossa heroína brasileira da sinuca.

BeesCats - Marcela Xavier - @marcelamxavier (6 of 15)

Foi também andando pelo Marais que eu encontrei pela primeira vez os BeesCats, um time de futebol do Rio de Janeiro que levou a medalha de prata nos jogos de Paris 2018. O bairro está sempre apinhado de homens gays, mas durante os Gay Games é como se os héteros tivessem sido deslocados para outra dimensão. Brasileiros no exterior se reconhecem de longe, e quando somos LGBT parece que há um ímã que nos atrai. Eu já tinha passado pela Vila (que não tem “Olímpica” no nome) para ver o que estava rolando por lá, então fiquei extasiada de ver meus compatriotas com seus uniformes tomando uma cerveja e fazendo uma farra no meio da rua, representando o BR daquele jeito que só quem tem 12 meses de verão por ano sabe fazer.

Os BeesCats Soccer Boys começaram como uma turma de pelada em maio de 2017. André Machado, roteirista paulistano que tinha se mudado para o Rio de Janeiro há seis anos, estava sentindo falta de jogar futebol, esporte que ele praticou a vida inteira. Em São Paulo ele tinha uma turma hétero com quem jogava bola, mas no Rio ele não conhecia muita gente que tinha esse costume, o que fez com que ele ficasse quase cinco anos sem jogar. Foi então que ele resolveu usar as redes sociais para ir atrás de pessoas que tinham interesse em formar um time de forma despretensiosa.

No primeiro encontro na quadra Só Cinco da escolinha do Paris Saint-Germain, ele reuniu 15 pessoas. No segundo, foram 30. No terceiro, 60. Ao fim do mês já eles já eram 100, entre jogadores amadores e agregados. Muita gente ia para ficar bebendo e assistindo os amigos. Nisso ele descobriu um tanto de homens gays que adoravam futebol mas não tinham espaço para praticar o esporte.

O BeesCats reune histórias inspiradoras, como a do Douglas Braga, que também jogou futebol a vida toda. Douglas saiu de casa aos 12 anos para treinar com o Madureira, e dos 18 aos 21 jogou no time de base do Botafogo. Ele chegou a participar de um Campeonato Brasileiro. Na época ele não era assumido e vivia um personagem dentro do ambiente absolutamente heteronormativo. Além de ter que ficar com meninas quando saía com o pessoal do time, ele fazia o papel de jogador machão, que implicava com quem era mais sensível mesmo que ele não fosse gay. O Douglas diz que tinha muito medo, e por isso partia para a agressão.

Na época, os motivos que o levaram a desistir da carreira foram “o cansaço e a saudade de casa”, mas hoje ele percebe que foi a restrição à sua sexualidade. Logo depois ele teve o seu primeiro relacionamento com um homem e aprendeu que poderia ser feliz e construir uma família à sua maneira – mas largou o futebol de vez, deixando um sonho para trás.

Douglas Braga - Marcela Xavier - @marcelamxavier
Douglas Braga

Douglas ficou 15 anos sem jogar. Ele decidiu parar porque era muito difícil praticar o esporte e ser um gay assumido. “Os homens acham que você está ali com outro intuito e é muito ofensivo”, ele não queria e nem precisava passar por isso. Quando ouviu falar do futebol gay pela primeira vez, foi do time Bulls, de São Paulo. Ele estava disposto a viajar do Rio para a capital paulista só pra jogar uma pelada com eles. Um amigo colocou ele em contato com os BeesCats e o resto é história. Douglas me diz, com uma serenidade sincera, que essa é uma das fases mais felizes da sua vida. Hoje ele é psicólogo e quer levar isso também para o futebol. E quanto aos ex-colegas do Botafogo, eles estão felizes pelo amigo e se encontram de vez em quando para relembrar os momentos que passaram juntos.

Os BeesCats começaram a se planejar com antecedência para participar dos Gay Games e correram atrás patrocínios que viabilizaram a presença nos jogos em Paris 2018, mas metade do time conseguiu arcar com pelo menos parte da viagem com dinheiro do próprio bolso. Numa dessas reviravoltas da vida, um deles ganhou na loteria durante os preparativos e precisava da grana para dar entrada na sua casa, mas entendeu a sorte como um sinal e usou uma parte do dinheiro para vir atrás do ouro. Muitos deles nunca tinham saído do Brasil, “são pessoas que talvez nunca teriam a oportunidade ou o ímpeto de viajar para fora, por serem humildes ou outros fatores mesmo”, me explica o André.

André Machado - Marcela Xavier - @marcelamxavier
André Machado

O time acredita que é muito importante participar de um evento como os Gay Games. Eles dizem que são um grupo que fazem muitas coisas, e também jogam futebol. Para os BeesCats, é importante mostrar que a sexualidade não tem a ver com habilidade. Os esportes, e o futebol em particular, são importantes para a inserção social das pessoas. Ter jogadores gays com títulos internacionais é um passo importante para tirar essas pessoas da margem, ou até do gueto, como diz Douglas. Mas eles também estão aqui porque é um festa e um intercâmbio cultural que rompe barreiras.

André vê o esporte como um elo que une as diferentes tribos dentro da cultura LGBT. As gays barbies, os ursos e as pocs, os que gostam de funk, axé ou eletrônico, os que amam ou odeiam academia, os que frequentam balada ou que preferem ficar em casa, todos têm a oportunidade de se conhecer e trocar experiências. Ele acha isso importante porque ajuda a combater o preconceito que existe dentro do mundo gay.

Página dos BeesCats Soccer Boys no Facebook: https://www.facebook.com/BeesCatsRJ/

Na manhã da sexta, dia 10 de agosto, me encaminharam uma mensagem que tinha enviada para todo mundo do time menos o Douglas. Sob o pretexto de fazerem fotos de divulgação, os BeesCats combinaram de se reunir em direção à praça do Trocadero, uma das vistas mais bonitas da torre Eiffel. Às 21h em ponto, um dos momentos em que a torre pisca por um minuto inteiro, Douglas vai ser pedido em casamento pelo seu companheiro Ricardo.

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