Paris – a fina arte de ser nômade dentro de uma cidade só

Quando eu coloquei a minha vida em duas malas e me mudei para Paris, eu sabia que não ia ser simples. Eu disse adeus para o meu cachorro, para uma rotina previsível em Belo Horizonte que incluía acordar todo dias às 7h da manhã, sextas-feiras no boteco e almoços de domingo com a família, e o conforto de ter um endereço fixo.

Eu vim para cá com a sorte de ter alguns amigos já morando aqui. Isso me ajudou em vários aspectos práticos e burocráticos, que não merecem atenção agora, mas também me serviu como janela para o futuro nos meses que antecederam a mudança, de forma que eu soube como seria a minha situação habitacional – mais ou menos.

Morar em Paris é caro, mas não só isso. Requer muito desapego porque os espaços são pequenos, muito menores do que se imagina. E para o estrangeiro, mesmo com um visto de residência, conseguir um contrato de aluguel é um processo quase que Kafkiano – ainda mais se você é um freelancer. A pessoa solteira na casa dos 20 anos que mora sozinha e tem um emprego mais ou menos bom, muito provavelmente mora em um studio (leia-se: studiô) situado em um dos 20 arrondissements que ficam dentro dos limites da cidade.

De acordo com a legislação francesa, um ambiente considerado decente para habitação deve ter ao menos 9m², e a altura mínima do teto deve ser de 2,2m. Tirando isso, não há muitas outras regras sobre o espaço. É por isso que os studios aqui variam muito no tamanho e na disposição do ambiente: em alguns você vai encontrar o chuveiro do lado da cama, em outros, o vaso sanitário do lado de fora, em um corredor compartilhado com outros moradores. Às vezes a cama é suspensa, para que o resto do espaço seja otimizado.

Em muitos dos casos, a cozinha fica a poucos metros de onde você dorme, o que significa que, se você cozinhar qualquer coisa que tenha mais tempero, corre o risco de ir dormir com os lençóis cheirando a alho e cebola. No verão ainda há a opção de abrir a janela (se você tiver uma janela que é maior que um basculante), no inverno é melhor comer batatas cozidas mesmo.

Esses motivos ilustram bem o porquê de eu ter recorrido ao AirB’n’B, e não à boa vontade dos meus amigos, para a minha estadia nos meus primeiros dias em Paris. Eu não tenho mais a disposição de mochileira do couchsurfing que tinha quando era mais jovem, e também não queria ficar confinada com as pessoas que serão o berço da minha sanidade nessa aventura que me aguarda e arriscar um atrito logo na primeira semana.

Morando no Marais

Com um orçamento baixo, eu até que consegui uma localização imbatível: a Rue des Archives, no 4º arrondissement. É claro que o quarto era um desses com os requerimentos mínimos possíveis: espaço minúsculo, janela menor ainda, a cama era suspensa e o toalete ficava no corredor, dividido com outros hóspedes. Eu não tive nenhum problema, a não ser as vezes que tropecei na minha própria mala, chutei as coisas com o dedinho e vi estrelas confinada no meu quarto.

O Marais é um quartier maravilhoso, um distrito histórico com prédios de tirar o fôlego e que me rendeu caminhadas noturnas por vielas que me fizeram questionar várias vezes se eu estava vivendo a realidade ou um sonho. Na luz do dia ficou bem claro que se tratava, sim, da realidade. O preço dos produtos dispostos nas vitrines meticulosamente desenhadas e montadas para passar o ar bourgeois-bohème (ou bo-bo), que as pessoas do mundo inteiro vêm sentir de perto não deixam dúvidas. As bolsas de grife, vendidas no Brasil a preços de carros populares, também oferecem um bom choque de realidade.

Descanso merecido em Montmartre

Meu segundo endereço em Paris foi bem mais afastado do centro comercial mas não muito longe de um polo turístico. Pelo mesmo preço do meu poleirinho no Marais eu aluguei um quarto na casa de um casal no 18º arrondissement. Um quarto enorme com duas janelas inteiras e lindíssimas (viradas para a rua e que, se eu deixasse abertas, me agraciavam com o som constante de sirenes e motos), uma cama de verdade, um sofá e uma mesinha com cadeira de onde consegui trabalhar pela primeira vez, depois de quase 3 semanas na França.

Eu estava perto do metrô, perto de um ponto de ônibus e perto de supermercados, mas finalmente entendi que Paris era a minha nova casa – mesmo tendo que arrastar duas malas de 20kg a cada poucas semanas pela cidade.

É muito fácil se distrair com os parques, jardins, museus e monumentos – especialmente nessa época do ano, em que o sol se põe depois das 21h e todo mundo está na rua aproveitando qualquer pedaço de grama que a cidade tem para oferecer. Mas a minha caixa de entrada estava cheia de e-mails não respondidos e as demandas de trabalho estavam se acumulando. Até hoje não visitei a basílica de Sacré-Coeur.

Ni Hao Belleville

Eu nada sabia sobre Belleville antes de me mudar para o studio de uma brasileira que iria viajar por um tempo e precisava de alguém para ocupar a casa dela nesse meio tempo. Eu também não vi a premiada animação As Bicicletas de Belleville – me processem.

Cheguei aqui numa segunda-feira, também com a ajuda de um amigo. Eu tinha hora para fazer o checkout no meu AirB’n’B e, sozinha, não teria como trazer todas as minhas coisas. Belleville é onde eu passei mais tempo, até agora, e é onde eu gostaria de ficar (embora eu fale isso de todos os lugares). O bairro é cheio de comércios chineses, tem vários supermercados com gôndolas de produtos com rótulos que não consigo ler e restaurantes de comida asiática que não sei se vou poder conhecer – mas já comi um pho delicioso em um, e um gyoza melhor ainda em outro. O acesso ao centro é super fácil e os bares são cheio de jovens que não têm o nariz empinado – algo que você não encontra na região do Marais, por exemplo.

Tenho mais duas semanas nesse recanto inesperado, de onde posso ir a pé para o parque Buttes Chaumont e escrever de frente para uma janela que dá para árvores enormes, e depois o meu destino é Bastille, no 11º arrondissement. Do jeito que as coisas andam, talvez eu consiga a proeza de morar em todas as 20 divisões administrativas de Paris (mas o que eu queria mesmo era uma residência fixa e não ter que arrastar malas nunca mais, por favor)!

15 de junho de 2017

*Update:

Bastille foi assim, até o final de julho:

Buzenval, no 20º, está sendo assim desde o início de agosto:

É um caso de amor que pode durar até novembro, ou mais. Vamos aguardar os próximos capítulos.

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