mea-culpa

A única certeza que tenho na vida é a de que os homens por quem sofri irão sair de algum buraco para pedir desculpas. Pode demorar três meses, um ano ou até dez, mas eles certamente aparecerão por qualquer que seja a crise que estão passando pelo momento e que trouxeram na maré o sentimento de culpa, até então compartimentado e bem escondido em algum canto obscuro do consciente, pela displicência e imaturidade emocional que levaram a rompimentos dolorosos – para mim.

Eu não nego minha parcela de culpa. Quando eu era muito nova eu sentia a pressão de agir como adulta e achava que isso significava agir como se tivesse algum controle da situação. Hoje eu sei que nunca tive e nunca terei. É claro que amadureci a forma de lidar com um coração partido.

Não estou dizendo que nunca mais mandei uma mensagem de suplício no meio da madrugada ou que não atormentei os meus 7 amigos mais próximos até sentir vergonha pelo turbilhão de ódio e coitadismo que joguei em cima deles. Mas pelo menos hoje eu sei eu não posso ser responsável pela obscuridade com que esses homens resolvem agir mediante o fim de relações que, por mais que nunca tenham sido rotuladas, ou que foram rotuladas e desrotuladas incessantemente até serem reduzidas ao pó, foram reais, palpáveis e construídas em cima de muito investimento emocional, pelo menos da minha parte, e aceitas, e muitas vezes reciprocicadas, mesmo que na ausência de palavras.

Depois de anos carregando nas costas a culpa por não ter sido boa o suficiente para não ser rejeitada, de não ter sido madura o suficiente para aceitar o fim, de não ter sido bonita o suficiente, magra, inteligente, boa de cama ou sei lá qual o meu maior defeito, anos aceitando que às vezes as coisas simplesmente não são, eu aprendo que uma hora ou outra a desculpa vai vir. Não porque foram eles os grandes vilões de situações que na verdade sempre foram fadadas ao fracasso, mas por não terem tido coragem de lidar com os sentimentos na hora certa e esterilizar a ferida a dois, do mesmo jeito que tudo tinha sido até então.

Até poucos dias atrás eu me sentia como uma enorme bagunça incapaz de seguir o rumo natural da vida assim como fizeram as pessoas mais próximas. Eu não me comprometi com outra pessoa até o fim da vida, eu não me comprometi com um trabalho seguro, eu não me comprometi com uma cidade e nem com um futuro certo. Mas a cada pedido de desculpas e cada angústia que o outro me expõe, entendo melhor porque escolhi e aceitei ser eu mesma. É um grande alívio não ter que olhar para trás e nem para os lados enquanto escolho cada passo que dou.

E quanto aos pedidos de desculpas, espero que continuem vindo. Não porque preciso deles: ainda desejo felicidade e segurança para todas as pessoas que amei. É que a cada mea culpa  que recebo é um envelope que posso selar e guardar com carinho, sabendo que eles também estão dando passos firmes em rumo à própria paz de espírito.

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