A carta de amor mais triste

Já faz um mês que parti meu coração rompendo seja lá o que era que nós tínhamos e tudo que sei sentir é apatia e solidão.

Eu preencho as manhãs com trabalho e listas intermináveis de coisas para fazer. É com tanta voracidade que desempenho minhas tarefas logo depois de acordar que o que me resta são tardes que não sei preencher, a não ser por tentar afastar o sentimento da sua ausência na minha vida.

Comecei a sentir essa ausência antes mesmo da fatídica conversa no hall do meu prédio, quando te perguntei se você achava que eu gostava de você mais do que você gostava de mim. Sua resposta foi um simples sim, mas eu não tenho certeza que foi isso que você quis dizer.

Quando nos conhecemos, você doía com a falta dos seus cachorros. A saudade deles estava presente em todas as nossas conversas e doía em mim também. Mas a sua prioridade era a sua recém conquistada liberdade e nela não havia espaço nem para um ser de quatro patas que dependesse de ti – que dirá para mim, bípede com polegares opositores e um coração que bate pautado pelo afeto.

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Mesmo assim, nós planejamos um escape de um dia e uma noite, em que tacitamente decidimos racionar comida para poder usufruir um do outro por quatros dias e três noites, sem TV, rádio ou acesso à internet. Eu e você numa casinha de madeira apenas.

Eu te deixei entrar porque você bateu à minha porta, mesmo que inadvertidamente. Talvez por um momento você tenha se esquecido de que a sua liberdade não comportava os laços que criamos, nem sua escova de dentes na minha pia, e muito menos a toalha amarela, designada a você, que habitava o meu banheiro. Coisas que você nunca pediu mas aceitou, de qualquer forma. Mais que entrar pela porta, você me fez derrubar os muros que eu usava para me proteger.

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A sua ausência me deixou com mais perguntas que respostas. A forma abrupta em que você se recolheu me minou de insegurança. A princípio eu pensei que não era boa o suficiente, e sofri – até me lembrar de que sou sim boa o bastante. Então a dúvida que ainda paira é a de que, será que para você, a nossa coisa sem nome era fundamentada apenas no carnal? O afeto que recebi foi apenas uma forma de gratificação pelo meu corpo e tudo que fazíamos entre quatro paredes?

Então eu me questiono se mais uma vez eu confundi pau duro com amor. A hipótese não é inviável, já que todas as manhãs eu acordava ao lado de um corpo distante, dormindo um sono profundo na beirada oposta da cama, de costas para mim.

Concluo, então, com uma frase que você adora repetir: eu só posso depender de mim mesmo/a.

Aos poucos, e mais uma vez, estou construindo muralhas ao meu redor. Talvez eu reaproveita alguns dos tijolos que derrubei para deixar você entrar

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