Casinha de papel

Na primeira vez que eu mudei de casa, eu me senti como uma princesa adentrado seu castelo. Saímos de um apartamento para a casa da vovó, e da casa da vovó fomos morar na nossa casa. Uma casa enorme, com um quintal tão grande quanto os meus olhos podiam enxergar (em minha defesa, eu tinha 4 anos de idade).

Cresci com cheiro de comida no fogão todo dia às 11 da manhã, com uma bicicleta cor de rosa, um cachorro pra correr comigo, uma piscininha pra aliviar o calor, um pé de manga pra dar trabalho em dezembro, uma jabuticabeira que atraía abelhas enormes e assutadoras, uma pitangueira que dava pitangas tão azedinhas que eu gostava mesmo é delas no suco, um pé de amora, um de acerola, e tudo mais que tinha direito. O meu quarto era só meu, o meu banheiro era só meu, e tudo que não era meu era meu também.
De lá eu saí sem aviso e sem dar tchau, sem saber se ia voltar. Eu não voltei.
De volta à casa da minha avó, dessa vez só com a minha mãe, vivi um pouco mais que três anos me sentindo como uma convidada. Convidada da vovó. Fiz de tudo para deixar o lugar com a minha cara, e até que deu certo. Mas bom mesmo foi quando eu me mudei para o meu apartamento.
Finalmente, depois de tanto tempo, um lugar pra chamar de meu (e da minha mãe, e da Gabi). Escolhi a cor da parede, as roupas de cama, a disposição dos móveis – que troquei várias vezes. Quando saímos de lá, voltamos mais uma vez à casa da vovó, só que dessa vez a vovó não está aqui.
Onde hoje tem uma tv enorme foi onde eu briguei com o meu avô quando ele disse “pois não” e eu entendi apenas “não”. Eu fiquei FURIOSA com a ousadia do meu avô de me dizer não!!! Eu queria beber água, mas não alcançava o filtro. É a memória mais nítida que tenho dele. Ele viveu mais alguns anos, mas o Alzheimer não me deixou chegar muito mais perto do que isso.
Na mesma sala, a vovó me contou quando ela se apaixonou por ele. Foi onde celebramos a maioria das nossas festas de Natal. Foi o palco de guerras, de pega polícia e ladrão e de pique esconde. Foi onde, durante anos, eu cheguei preguiçosa da aula, joguei minha mochila e esperei a minha mãe para almoçar. Foi onde a vovó passou seu último ano deitada, vendo tv, recebendo visitas, sendo a vovó.
Em 2012 a gente não tinha mais idade pra brincar de pique-esconde, então revivemos a infância tirando um cochilo coletivo depois de ver um jogo de futebol.
Eu olho para as paredes e tudo me parece meio surreal. A casa onde a minha mãe cresceu, a casa que me abrigou sempre que eu precisei, a casa onde eu e uns 50 primos (sim, e de priemeiro grau) fomos felizes e tomamos chá mate super gelado, ela vai ser demolida.
A casa da vovó sem a vovó já é estranha o suficiente. É como encontrar um amigo que está sofrendo de amnésia e não é bem quem costumava ser, mas você sabe quem ele era, e fica confuso entre essas duas pessoas distintas, porém tão unidas. Mas bizarro mesmo é olhar para as paredes e entender que elas não mais guardam todas essas memórias, e que quando elas caírem eu não vou poder chorar por elas.
PS: Este ano celebraremos o último Natal nesta casa, com toda a família reunida. Eu já disse que somos uns 50 primos?

9 comentários em “Casinha de papel

  1. Chega uma hora em que temos que deixar algumas coisas pra trás, mesmo que não queiramos. Faz parte do processo, e por mais que venha com uma certa dor de saudade, vem também com um espaço para respirar fundo e prosseguir. Tire muitas fotos, de cada detalhe importante pra você e então, deixe ir. Mais importantes são as memórias, elas são a alma que vestem aquilo que tocamos. Feliz natal pra você e seus 50 primos! 🙂
    (E eu que achava surreal ter quase 20!) oO
    Bjs!

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  2. Estou lendo a obra mais recente do Neil Gaiman agora e toda narrativa sobre casas da infância remetem ao passado mais remoto, às lembranças mais delicadas, assim como o seu texto. é uma válvula de escape excelente, a casa da nossa infância, seja ela qual for.
    Necessário um lugar assim.
    Abraços.

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  3. Nossa, eu sou super apegada aos lugares que morei! As vezes me pego lembrando de alguns detalhes, como o jardim, com era a disposição dos quartos, os azulejos… uns anos atrás meus pais se mudaram da casa que foi da minha vó e que eles moraram por muitos anos.
    Antes de sair, pedi para minha mãe tirar fotos dos cômodos vazios para eu “me despedir”. Quando vi as fotos, resolvi fazer uma sequencia de montagens da casa antes e depois. Está no album do Facebook – https://www.facebook.com/ilafox/media_set?set=a.3134742066136.101074.1792372059

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  4. Nessas horas que fico com receio de sair da minha casa. Por mais que eu tenha saído duas vezes, mas com data de volta, se um dia eu voltar pra cá essa casa provavelmente não será mais onde minha mãe mora, por ser muito grande e cara de manter, mas sim outro lugar estranho e eu não vou poder me despedir aos poucos, sabendo que será o último dia.

    Ainda impressionada com os teus 50 primos. É uma memória linda mesmo, principalmente essa foto que você postou. Aqui em casa é só a gente mesmo, Natal é pequeno, é tudo bem unido e eu acho que faz a casa ser mais ainda um papel essencial nas memórias.

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