Meio melancólico e tal…

 

Ultimamente eu tenho tido sonhos bem estranhos.
Em um deles, eu precisava entrar numa galeria na Damrak e atravessar uma ruazinha pra chegar numa filial da Hema. Estava bem frio e chovia uma garoa fininha.
O céu estava cinza, como de costume, e eu usava as minhas botas impermeáveis com duas meias e uma meia calça por baixo do jeans. Mesmo assim, dava pra sentir o vento frio e úmido gelando as minhas pernas.

Daí, quando eu estava prestes a sair da galeria (que tem uma loja de cartões postais com uma daquelas máquinas de sorvete barato), e pisar no chão de tijolinhos vermelhos – mas não sem antes olhar para os lados pra ver se não tem nenhum sem noção andando de bicicleta por ali, onde é proibido – eu acordava. Perturbada, na minha cama, no meu quarto, usando nada além de uma calcinha e uma regata pra tentar aguentar o calor, em Belo Horizonte.
Quê? Mas como assim? Eu preciso ir a Hema! É pra lá que eu tava indo! Momentos antes eu pisava nos chão de pedrinhas, eu sentia o vento frio entrar pela brecha das minhas roupas, eu ouvia o sino das bicicletas e sentia o cheiro das castanhas torradas! Eu não consegui entender, ou aceitar, que eu estava deitada no meu edredom lilás, ouvindo os ruídos do trânsito, rodeada por um cenário conhecido e com a impressão de estar atrasada pra ir pra alguma festa. Toda essa incompreensão me fez chorar.
Sequer pude entender o sonho, ou o que eu estava indo fazer na loja. O local é tão bagunçado e cheio de turistas. E, de repente, a verdade pesou, intensa e dolorida. Para chegar na loja, eu teria que atravessar um caminho muito mais longo que aquelas ruas deliciosamente bagunçadas. Eu teria que voar longe, gastar muito dinheiro e, mais uma vez, deixar tudo para trás. Meu cachorro, a escola, o namorado, o estágio, a minha mãe… As coisas começaram a fazer menos sentido ainda, e eu chorei de novo.
Quando eu morava na Holanda eu tinha um sonho recorrente onde eu estava no Brasil. Estava com amigos, fazendo qualquer coisa e, de repente, eu percebia que estava atrasada para o trabalho. E, ainda sonhando, era capaz de entrar um surto de pânico quase real POXA, MEU TRABALHO FICA EM OUTRO PAÍS! COMO É QUE EU VOU CHEGAR LA NA HORA SE SÓ O VOO DEMORA 9 HORAS. Eu acordava abruptamente, agitada e confusa, mas ainda na Holanda.
Já de volta a Belo Horizonte, no começo deste ano, eu tive o mesmo sonho algumas vezes, só que neste sonho eu precisava retornar à Holanda imediatamente. Tudo bem, já estava acostumada com a situação, é estranho estar uma hora de um lado do mundo e de repente do outro. Laços fortes aqui, laços mais fortes ainda lá… Faz parte da experiência. Mas é que nenhum destes sonhos, protagonizados por família e amigos, foi tão real ou tão perturbador quanto a esse da Hema, a lojinha que vende tudo e nada.

Eu levantei pra pegar um copo d’água e continuei sendo assombrada por aquele sentimento horrível de que eu nunca mais desceria num ponto de tram sem saber se é o lugar certo ou não, que eu nunca mais ficaria perdida pelos canais andando de bicicleta, e que cada pessoa nova que eu conhecesse não iria me julgar porque é amiga de um amigo de um amigo de uma pessoa que eu não conheço muito bem mas já ouviu falar de mim porque eu morei aqui a vida toda e…

 

 
É triste que aqui, quando eu vou comprar um cigarro, eu simplesmente compro um cigarro. Não preciso me aventurar com um “mag ik een camel blauw..dfdsifhdsiof?” e rir com o vendedor porque, sei lá, eu me recuso a falar inglês com ele. Fico decepcionada porque toda vez que eu vou pra casa eu estou indo pra casa, e não tenho que passar pela Amsterdam Centraal e pensar “putz, eu nunca pensei que eu fosse estar aqui, que coisa mais doida”.
Em Belo Horizonte eu não tenho canais onde eu posso sentar e comer pão com patê e cerveja barata sem ser julgada, nem posso pegar a minha bicicleta e atravessar a cidade. Não posso me aproveitar do fluxo enorme de estrangeiros e conhecer gente do mundo todo, almoçar em restaurantes etípoes ou tomar uma cerveja com sabor de banana, que apesar de ser nojenta, é uma cerveja com sabor de banana e cai super bem com a comida que estaria comendo com as mãos. Aqui, quando eu falo que sou brasileira, de Belo Horizonte, ninguém fala “uaaaaaaaaau” e me trata super bem só porque eu vim do outro lado do mundo. Aqui eu sou a Marcela, filha da Valeria, amiga do Fabio, namorada do Ricard, aluna da Fumec… Mais magra que fulana, mais gorda que cicrana, mais feia que beltrana… Mais perdida em mim mesma do que nas palavras que têm mais vogais do que deveriam.

8 comentários em “Meio melancólico e tal…

  1. eu fico pensando em pesquisar qual o nome desse fenômeno que a Holanda causa na gente quando voltamos pro Brasil. (não usei vírgulas). Mas é extremamente quase confortante saber que não sou a única a passar por isso.

    Curtir

  2. Eu nunca viajei assim, então, não sei como é, mas as suas palavras me fizeram imaginar. A Holanda deve ser um país muito lindo e eu já comecei a sonhar acordada só com o que você disse de lá

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s