Como eu não fiquei famosa – a cronologia

02/07
Minha amiga Manuela, que mora em Salvador e que eu conheci na Holanda, me mandou uma sms perguntando se eu participaria do Big Brother. Respondi “ahahahahaha lógico, meu sonho dourado ser rica e famosa” – mas eu não sei o quanto de verdade tinha nisso. Daí ela falou que iria me indicar pra uma olheira da Globo. Consenti.

Contei pro meu namorado, que mostrou seu repúdio por pessoas que vão a esse tipo de programa. Concordei em certo grau. Na verdade, eu nunca assisti o Big Brother.
Antes de dormir eu dei uma pensadinha: imagina se eu vou? Imagina ficar alguns meses longe do meu namoradinho-lindo-grande-amor-da-minha-vida? Imagina ter que me submeter a aquela tortura horrorosa de me confinar em um quarto de hotel por uma semana, sem ter ninguém pra conversar? Imagina se o Richard termina comigo porque não quer que eu vá pra esse programa e daí, nesse curto espaço de tempo, ele vai lá, casa e tem mil bebês com uma prostituta/estudante de moda/burra-profissional qualquer? Imagina se eu fico muito bêbada um dia e acabo pegando um personal trainer com o vocabulário menor do que o de uma menina de 5 anos? Pânico. Decidi que não quero que nenhuma dessas coisas jamais aconteça, e que o melhor jeito de evitá-las era.. bom, pra começar, simplesmente não ir pra um reality show.
04/07
O telefone toca, é um número do Rio de Janeiro. Uma mulher se identifica como amiga da fulana, namorada do Otávio (quem?), qualquer coisa do tipo. Pergunta se eu sou a Marcela Xavier mesmo, eu confirmo. Ela fala que trabalha para a Globo e está fazendo o casting de um reality show. Diz que quer me conhecer e me chama pra uma entrevista no dia seguinte. Não posso, ela pergunta se posso ir dali a dois dias. Digo que sim, marcamos um horário. Hotel Ouro Minas, 19:30, no lobby do hotel, porque ainda não sabem em que sala vai acontecer a entrevista. Desligo o telefone confusa, me lembrei do processo de recrutamento para o emprego no Walt Disney World Resort – do qual tenho lembranças ligeiramente desconfortáveis – que também aconteceu num hotel.
06/07
18:00- saio do trabalho com uma roupa bonitinha, nem muito formal e nem muito xexelenta. Também não quero chamar muita atenção. Achei que “bonitinha” seria o ideal. Estou MORRENDO de vergonha de encontrar algum conhecido por lá, mas estou também MUITO animada pra ver que tipo de gente essa turma da Rede Globo decidiu reunir pra escolher quem merece a dádiva de estrelar em seu horário nobre.
18:35- cheguei quase uma hora mais cedo. O trânsito estava bom demais pra uma sexta feira. Entrei no hotel meio nervosa, sentindo que eu pertencia em qualquer lugar menos ali. Na recepção, me mandaram subir para o restaurante no primeiro andar.
Assim que cheguei, uma das mocinhas do casting -que se identificou quando estava no telefone pedindo uma limonada-, estava de pé com uma cara meio ranzinza. Me apresentei e ela pediu que eu me sentasse porque estava terminando uma outra entrevista. A entrevistada era, ufa, alguém que eu nunca antes vi na vida. Tentei muito não ouvir o que ela estava falando, não me interessava mesmo. Eu já estava com vergonha o suficiente por mim!
Apesar de estar com a cara enfiada num livro, ouvi a menina dizer que era atriz, e descrever a sua personalidade com palavras como “garra”, “atitude”, “forte”, “sai debaixo” e todas essas coisas horríveis que seria de se esperar de ouvir numa situação dessas mas que me pegaram de surpresa por tamanha tacanhice. A minha vontade era de sair de fininho e me teletransportar para a minha cama, mas a entrevista da Atriz Guerreira acabou e era a minha vez.
As entrevistadoras me chamaram para sentar na mesa delas e pediram que eu contasse um pouco da minha relação com a Gabi, que me indicou (quem? será que Gabi é a amiga da Manuela?! errrr).
O garçom pediu para que a gente mudasse de mesa porque um time de futebol estava chegando e a qualquer momento o segurança da equipe viria fazer uma vistoria da sala, e provavelmente ia pedir pra gente se mover pra um cantinho da sala. Elas não pareceram nem um pouco felizes. Eu perguntei se elas precisavam de ajuda pra levar as coisas pra outra mesa, ela descartaram imediatamente (não queria dizer pra não parecer recalque, mas foi também com uma certa grosseria). Daria todo o dinheiro na minha carteira mais os meus sapatos novos só pra poder desaparecer naquele exato momento.
Já na outra mesa, pediram que eu falasse mais sobre a Gabi. Ou sobre a amiga da Gabi e porque ela havia me indicado. O que era tão interesasnte sobre mim que ela queria ver na tv (gente, eu não tinha idéia!). Perguntaram sobre a minha personalidade, como eu lidava com as pessoas.
Disse que eu era uma pessoa tranquila, que eu me dava bem com todo mundo, mas que eu era muito direta e isso incomodava algumas pessoas. Uma delas disse que não me imaginava incomodando ninguém porque eu parecia ser muito “calminha” – se você me conhece Na Vida Real você deve estar gargalhando.
Achei ultrajante esse jeitinho manso dela dizer que eu era desinteressante e bege. Mas realmente, eu estava numa entrevista, elas queriam saber sobre mim e eu estava tentando destacar as minhas qualidades. Não é isso que a gente faz nas entrevistas?
Bom. Como eu aprendi com o Desastre do Walt Disney World Resort e, infelizmente, com o casting do Big Brother, não é muito bem por aí. Nessas entrevistas, o entrevistador não quer ouvir sobre você. Ele quer ouvir sobre o que ele está te oferecendo e quer medir, nas suas palavras, o quanto você quer aquela oportunidade.
No caso da Disney, eles queriam ouvir o quanto de empreendedorismo existia dentro de mim, que tinha que ser TANTO que eu estaria disposta a ver, na oportunidade de lavar o banheiro dos outros ou fazer o cachorro quente deles, uma brecha para o meu brilhante futuro como sucessora do Sr. Walt Disney.
No caso do BBB, elas queriam ouvir o quanto eu estava disposta a me humilhar para ter a oportunidade de ficar “famosa”. Elas queriam saber do pior lado da minha personalidade, dos momentos de que eu menos tenho orgulho, de detalhes sórdidos da minha vida que só os meus amigos mais próximos sabem, e explorar facetas de mim mesma que eu não quero que ninguém veja.
Me perguntaram se eu tinha uma estratégia pra ganhar o prêmio, mas quem disse que eu lembrava que o Big Brother oferecia o prêmio?! Pra mim esse negócio de reality show era só sobre ficar trancafiado numa casa com gente estranha, tomando sol, nadando, cuidando da saúde e indo numas festas pé-na-jaca com uma galera tipo.. o Michel Teló, sabe? Claramente eu não sei nada sobre nada.
Não sei quem ficou mais entediado durante esses 15 minutos, eu ou as Ilmas. Representantes da TV Globo.
Elas tentaram me empurrar mais um tiquinho, perguntaram se tinha mais alguma coisa sobre mim que eu queria contar.
Que eu já namorei garotos, garotas e casais? Que eu me vinguei de uma menina jogando creme depilatório na cabeça dela (hah, bem que eu queria!)? Que quando eu morei na Holanda eu, secretamente, trabalhei como prostituta, dançarina sensual e traficante de drogas? Que além de saber cozinhar eu sei uma receita caseira de laxante pra intoxicar 12 pessoas de uma vez?
Não, obrigada. Ainda prefiro que apenas os meus amigos mais próximos saibam o quanto disse é verdade ou não.
Não falei mais nada, elas me disseram que talvez me ligariam – o que eu sabia que jamais iria acontecer (e não conteceu).
E foi assim que eu não fiquei famosa.

5 comentários em “Como eu não fiquei famosa – a cronologia

  1. Que texto divertido, hehe. Adorei, sério. É bem longo e eu gostei dele, principalmente porque – confesso, com um pouco de vergonha – que eu já vi praticamente todas as edições do Big Brother e os participantes se descrevem mais ou menos desse modo, com “garra”, “raiva”, e que “dizem o que pensam”, dentre outros.

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  2. Já pensei em participar do Big Brother, mas a minha vida já é livro aberto demais. Sem contar que sou tão chata que seria eliminada na primeira semana. Me diverti muito com a tua história. Quem sabe você não fica mesmo famosa?
    Gostei muito daqui. E voltarei. Abraços.

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