Eu fiz 30 anos em Paris

Eu fiz 30 anos em Paris

Eu faço anos no começo de fevereiro, entre as festas de final de ano, que odeio, e o início de fato do ano útil, quando todo mundo está sempre viajando. Todas as vezes que tive que ligar para um bar para reservar uma mesa grande (8 pessoas? 10? 12? Não sei!) foi de última hora por causa do stress paralisante que eu sentia ao pensar em ter de convencer pessoas a saírem de casa quando eu mesma gostaria de ficar recolhida pensando no número que se adiciona à minha idade e o que ele significaria a partir de então.

Acho que essa paranoia com números começou mesmo a partir dos 26, quando eu saí oficialmente da faixa dos vinte e poucos. Foi também quando eu encontrei o meu primeiro cabelo branco e, honestamente, eu não estava pronta. Quando fiz 27 eu terminei um relacionamento que tinha durado toda a minha vida adulta, minha mãe ficou doente e eu tinha uma monografia e um projeto de mestrado para terminar. Eu me senti atrasada e com raiva. Os 28 foram tranquilos, eu tinha planos, estava me divertindo ocupada com isso tudo. Já os 29 vieram como a morte. Minha rotina já estava sendo assolada por uma depressão há alguns meses e foi quando, de repente, eu me encontrei revendo todo o motivo da minha existência. Eu questionei todas as peças do meu guarda roupa, o meu círculo social, eu olhava para a cidade pela janela tentando aceitar que era dali que eu vinha e que Belo Horizonte fazia parte de mim, assim como eu fazia parte dela. Poucos dias depois, decidi ir para a França e “bom, pelo menos vou fazer 30 anos em Paris”, eu pensei.

Eu ia fazer uma viagem de poucos meses pelo Canadá, meio sem rumo, quando alguém me falou de um visto novo com a duração de um ano para brasileiros na França. Já tinha amigos morando em Paris e não pensei muito, só liguei para a companhia aérea e troquei as passagens. Meu francês não era bom, mas eu achava que dava para o gasto (não dava). Eu já tinha morado por um ano na Holanda, o quão difícil poderia ser? (Muito).

inverno em paris

2 de Fevereiro, dia de Iemanjá. É o auge do verão no Brasil e a gente mal se abraça porque está melado de suor e chuva. Já em Paris, a cidade não lembra nem um pouco o que dizem os panfletos de agências de turismo que vendem pacotes para a Cidade Luz. Quando eu imaginei meu aniversário de 30 anos em Paris eu pensei na torre Eiffel, no rio Sena, na luz dourada do sol refletida na arquitetura da cidade. Não teve nada disso. O inverno é muito escuro, bem mais do que eu antecipava, e eu não fui a única a ficar meio reclusa depois do período de festas por aqui.

Criei um evento no Facebook pouco antes do natal, quando percebi que meu aniversário ia cair num sábado. Decidi que o tema seria o Velório dos meus 20’s. Nada triste! Eu só queria me despedir da década mais jovem e entrar na casa dos 30 dizendo adeus a coisas que não fazem mais parte da minha vida. Instruí os convidados a usarem preto e comprei umas velas. Uma amiga que faz teatro e está ensaiando uma peça por acaso tinha na bolsa um véu de viúva, o que resultou numa foto que não faz sentido nenhum.

Poucas pessoas presentes tinham ultrapassado a marca dos 30. Um deles, de 38, disse que passou por uma grande crise existencial, largando o trabalho e mudando de vida radicalmente. Seu marido, de 34, disse que nem percebeu a passagem. Outros disseram que a vida só melhora, apesar do baque do número (isso veio de uma mulher). Eu adorei todos os parabéns que recebi, ri muito de todas as piadas com a morte dos meus 20’s, mas evitei usar a palavra trinta a noite toda.

De qualquer forma, eu fiz 30 anos em Paris. Comemorei na minha casa, no meu apartamento meio apertado. Não teve torre Eiffel nem rio Sena, mas eu tive as luzes das velas do meu cheesecake de parabéns e o calor dos amigos. Foi um dos melhores aniversários que já tive.

Eu ainda não vi tudo que queria nessa cidade, e nem sei se vou ter tempo de ver. A verdade é que a rotina tira um pouco a mágica das coisas. No frio é mais fácil ficar com preguiça do metrô e das caminhadas na chuva fria entre a multidão ranheta do que abraçar o clima adverso e aventurar para fora da minha cabeça. Mas essa sou eu, e eu faço a mesma coisa no verão brasileiro, cujo clima considero igualmente desfavorável.

Também não sei se a vida só melhora a partir agora, sei que estou feliz de não ser mais uma menina nova e perdida. Como de praxe, eu só tenho planos para os próximos 12 meses. No momento, acho que deveria focar mais nos próximos 3, que são os que me restam aqui.

Coisas que ninguém te conta sobre ser um Nômade Digital

Coisas que ninguém te conta sobre ser um Nômade Digital

Em algum momento da minha vida eu comecei a receber emails com títulos “Está na hora de pedir demissão?”, “Porque (sic) morar no exterior pode ser mais barato que no Brasil” ou “Como foi voltar para o escritório hoje?” depois de um fim de semana prolongado. Tem gente que vende o estilo de vida “Nômade Digital” como se fosse simples como vender um carro e entrar num avião.

Não é. Pra começar, nem todo mundo tem um carro para vender ou um emprego para largar. Mas algumas pessoas não têm famílias para sustentar e têm vontade de morar em outro país enquanto continuam fazendo freelas, e foi isso que eu fiz. Talvez isso faça de mim uma ~nômade digital, mas eu uso esse termo de forma muito solta.

Eu nunca acreditei muito nesse papo de Nômades Digitais, especialmente depois que saiu a notícia daquele casal que “largou tudo para viajar o mundo” e acabou “limpando privadas”. A internet fez muita chacota deles e eu entendo porquê. No Instagram a vida parece ser uma coisa e muitas vezes a realidade não corresponde às fotos.

Os textos de blogs em que as pessoas encorajam as outras a pararem de consumir para investir em “experiências” são ofensivos para quem não pode se dar a esse luxo – até que se descobre que não é um luxo, e que envolve sacrifícios tipo lavar privadas. Nada contra lavar privadas, meu problema é com quem vende um estilo de vida que não existe, com quem fala que trabalha todos os dias na beira da praia bebendo água de côco em Bali e omite a parte em que faz a conta fechar. Continue lendo “Coisas que ninguém te conta sobre ser um Nômade Digital”

Gay Games – Paris 2018

Gay Games – Paris 2018

Num dia quente no final de julho eu estava andando pelo Marais, um bairro que concentra uma enorme quantidade de estabelecimentos gay-friendly em Paris, quando vi que um deles – uma padaria que produz pães em formatos pênis, dentre outras coisas – estava decorando a sua fachada com os arcos olímpicos. “São os Gay Games”, um amigo comentou. Eu nunca tinha ouvido falar do evento, mas ele estava para acontecer na capital francesa entre os dias 4 e 12 de agosto.

Na semana seguinte, esse mesmo amigo voltou de um jantar com a tia de um ex-namorado que estava na cidade e me contou uma história meio curiosa. Ela, a Adriana Agostini, natural de Juiz de Fora, tinha participado dos Gay Games em Chicago em 2006 jogando sinuca. O que é curioso na história é que ela não sabia jogar sinuca. Não é exatamente o que se espera de uma atleta competindo a nível internacional. Mas ela queria tanto participar do dos Gay Games que se registrou, e se preparou jogando com amigas em um bar gay em Belo Horizonte, o Mamãe Já Sabia, e em um site da internet que simulava partidas. Continue lendo “Gay Games – Paris 2018”

Paris – a fina arte de ser nômade dentro de uma cidade só

Paris – a fina arte de ser nômade dentro de uma cidade só

Quando eu coloquei a minha vida em duas malas e me mudei para Paris, eu sabia que não ia ser simples. Eu disse adeus para o meu cachorro, para uma rotina previsível em Belo Horizonte que incluía acordar todo dias às 7h da manhã, sextas-feiras no boteco e almoços de domingo com a família, e o conforto de ter um endereço fixo.

Eu vim para cá com a sorte de ter alguns amigos já morando aqui. Isso me ajudou em vários aspectos práticos e burocráticos, que não merecem atenção agora, mas também me serviu como janela para o futuro nos meses que antecederam a mudança, de forma que eu soube como seria a minha situação habitacional – mais ou menos.

Morar em Paris é caro, mas não só isso. Requer muito desapego porque os espaços são pequenos, muito menores do que se imagina. E para o estrangeiro, mesmo com um visto de residência, conseguir um contrato de aluguel é um processo quase que Kafkiano – ainda mais se você é um freelancer. A pessoa solteira na casa dos 20 anos que mora sozinha e tem um emprego mais ou menos bom, muito provavelmente mora em um studio (leia-se: studiô) situado em um dos 20 arrondissements que ficam dentro dos limites da cidade. Continue lendo “Paris – a fina arte de ser nômade dentro de uma cidade só”

Paris – semana 16

Paris – semana 16

“São as últimas semanas de verão por aqui e a cidade está meio deserta. Tem vários comércios fechados e só tem gente falando inglês nas ruas! Uma loucura. Estou só flanando por Paris hahaha. Como já mencionei uma vez, sou amiga do Rodrigo, que trabalha no Conexão Paris com a Lina. É muito gostoso ter ele aqui comigo porque o trabalho dele é basicamente visitar os pontos turísticos e interessantes da cidade para postar na internet, né? Então quando ele vai fazer uma coisa mais interessante e eu tenho os dias livres eu acompanho ele nos passeios. Tem sido uma temporada maravilhosa.

(…)

A minha vida aqui é mais modesta do que na casa da minha mãe no Brasil, mas estou vivendo com muito mais qualidade e segurança, sem contar que morar em Paris já é um luxo por si só. A cidade tem muita coisa para oferecer. Eu passo os domingos na beira do Sena, o que não tem preço! Meu ponto preferido é ali na Île Saint-Louis, porque depois gosto de passear pela ilha que é tão pitoresca! E às vezes estou a caminho de algum lugar para comprar um livro ou encontrar uma pessoa e passo por monumentos que a gente está acostumado em ver em livros e filmes. É muito engraçado. Eu gosto de visitar a Shakespeare and Company, que vende livros em inglês, e para chegar lá eu tenho que passar pela catedral de Notre Dame. Eu acho um escândalo olhar pra cima e ver as duas torres da igreja em um dia absolutamente comum! Tenho um amigo que mora bem perto da Sacré-Coeur também, e às vezes vamos tomar um vinho perto da casa dele e basta olhar pra cima que a catedral está lá, toda linda e imponente. É maravilhoso! Sem contar todas as vezes que a gente está andando pela cidade e vê, ou a torre despontando de algum lugar, ou as luzes dela no céu. Eu estou morando no XXème, perto de Nation. Nem é perto da torre, mas daqui da minha janela eu vejo a luz dela rodando no céu e dá aquele quentinho na barriga!

Estou um pouco triste porque o verão está chegando ao fim, os dias já estão ficando mais curtos. Não é nem que eu não goste do frio, mas a cidade está vibrando muito e eu sei que já já todo mundo vai ficar mais recolhido e não vai ser possível aproveitar tanto do lado de fora. As folhas estão começando a mudar de cor também, o que é lindo, né? Quero tirar um dia para fazer fotos, preciso descobrir os lugares mais bonitos para isso!”

Trecho de um email para minha querida cliente Adriana.

 

3 mensagens não lidas

3 mensagens não lidas

Às vezes esperar por um email se torna uma obsessão. Há 36 dias estou à espera de um sim na minha caixa de entrada, mas no lugar dele vieram várias outras coisas que me tiraram do sério. Primeiro veio um quase-não na forma de suspensão de um processo consular. O meu mundo veio por água abaixo e acho que os meus cabelos caíram quase todos também. Na urgência louca e inflamada de tentar resolver o problema que nem era meu para resolver eu esperei por vários outros emails, mas o problema dessa comunicação quase que arcaica e que só serve mesmo para formalidades, trabalho e outras chatices é que cada vez que sobe o número de mensagens recebidas o coração acelera, e quase sempre se trata de uma decepção. Mesmo assim eu não largo meu celular; abro o app do Gmail como um tique nervoso, a cada poucos minutos, às vezes segundos. No computador, a aba do email nunca está fechada. Já não é consciente o meu constante monitoramento do canto superior esquerda da tela – enquanto escrevo esse texto já chequei pelo menos três vezes. Tenho 3 mensagens não lidas e são todas de trabalho, para amanhã. Vou resolver essas tarefas todas o mais rápido possível para poder zerar a contagem e poder dar espaço à ansiedade que enche minhas tardes e noites.